p.25
"Sobretudo, não acredite que os seus amigos lhe telefonarão todas as noites, como deviam, para saber se não é precisamente essa a noite em que decidiu suicidar-se ou, mais simplesmente, se não tem necessidade de companhia, se não está com vontade de sair."
p.57/58
"No que me diz respeito, já consigo ouvi-los: 'Matou-se porque não pôde suportar que...'
Ah! caro amigo, como os homens são pobres de inventiva! Julgam sempre que nos suicidamos por uma razão. Mas podemos muito bem suicidar-nos por duas razões."
"eu amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza. Amo-a tanto, que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida."
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Pais e Filhos, Ivan Turgueniev
"Como é presunçosa a mocidade de hoje! A gente pergunta a qualquer moço: ' Que vinho prefere, tinto ou branco?' ' Costumo tomar vinho tinto!', responde em tom grave e com tanta importância, como se todo o universo o contemplasse nesse momento..." (66)
"- Chamo-me Arcádio Nikoláievitch Kirsánov - disse Arcádio. - Nada faço neste mundo." (79)
"Não percamos tempo. Só perdem tempo idiotas demasiado inteligentes." (94)
"Sou infeliz porque... porque não tenho vontade de viver. Olha-me como se pensasse: fala uma aristocrata vestida de rendas e sentada numa poltrona de veludo. Não nego: gosto daquilo que se chama de conforto e ao mesmo tempo tenho pouca vontade de viver. Resolva essa contradição como bem o entender." (116)
"O aparecimento da futilidade costuma ser às vezes útil na vida: afrouxa as cordas demasiado tensas e arrefece os sentimentos muito fortes e duradouros ou passageiros, lembrando-lhes o estreito parentesco existente entre ambos." (127)
Turgueniev, Ivan. Pais e filhos. São Paulo: Abril cultural, 1981.
"- Chamo-me Arcádio Nikoláievitch Kirsánov - disse Arcádio. - Nada faço neste mundo." (79)
"Não percamos tempo. Só perdem tempo idiotas demasiado inteligentes." (94)
"Sou infeliz porque... porque não tenho vontade de viver. Olha-me como se pensasse: fala uma aristocrata vestida de rendas e sentada numa poltrona de veludo. Não nego: gosto daquilo que se chama de conforto e ao mesmo tempo tenho pouca vontade de viver. Resolva essa contradição como bem o entender." (116)
"O aparecimento da futilidade costuma ser às vezes útil na vida: afrouxa as cordas demasiado tensas e arrefece os sentimentos muito fortes e duradouros ou passageiros, lembrando-lhes o estreito parentesco existente entre ambos." (127)
Turgueniev, Ivan. Pais e filhos. São Paulo: Abril cultural, 1981.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Grande Sertão: Veredas (p.p.1-150)
"O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar." (32)
"Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar." (32)
"O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal..." (35)
"O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior." (39)
"Moço: toda saudade é uma espécie de velhice." (56)
"Eu sei: nôjo é invenção, do Que-Não-Há, para estorvar que se tenha dó." (75)
"Como é que se pode gostar do verdadeiro no falso? Amizade com ilusão de desilusão. Vida muito esponjosa. Eu passava fácil, mas tinha sonhos, que me afadigavam. Dos de que a gente acorda devagar. O amor? Pássaro que põe ovos de ferro." (77)
"'Você aguenta o existir?' - perguntei. - 'Guardo isso, para às vezes ter saudade'" (81)
"A gente, se queria, mirava, ainda acertava neles. Coisas que vi, vi, vi - ôi... Eu não atirei. Não tive braçagem. Talvez tive pena." (84)
"O barulhim do rio era de bicho em bicheira." (94)
"No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso..." (101)
"Ah, porém, estaquei na ponta dum pensamento, e agudo temi, temi. Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!" (103)
"Gostava de Diadorim, dum jeito condenado; nem pensava mais que gostava, mas aí sabia que já gostava em sempre. Ôi, suindara! - linda cor..." (110)
"Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar o corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!" (116)
"Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas - e só essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção." (116)
"Achei mesmo que tudo tinha perdido a graça, o de se ver." (136)
Rosa, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
"Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar." (32)
"O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal..." (35)
"O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior." (39)
"Moço: toda saudade é uma espécie de velhice." (56)
"Eu sei: nôjo é invenção, do Que-Não-Há, para estorvar que se tenha dó." (75)
"Como é que se pode gostar do verdadeiro no falso? Amizade com ilusão de desilusão. Vida muito esponjosa. Eu passava fácil, mas tinha sonhos, que me afadigavam. Dos de que a gente acorda devagar. O amor? Pássaro que põe ovos de ferro." (77)
"'Você aguenta o existir?' - perguntei. - 'Guardo isso, para às vezes ter saudade'" (81)
"A gente, se queria, mirava, ainda acertava neles. Coisas que vi, vi, vi - ôi... Eu não atirei. Não tive braçagem. Talvez tive pena." (84)
"O barulhim do rio era de bicho em bicheira." (94)
"No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso..." (101)
"Ah, porém, estaquei na ponta dum pensamento, e agudo temi, temi. Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!" (103)
"Gostava de Diadorim, dum jeito condenado; nem pensava mais que gostava, mas aí sabia que já gostava em sempre. Ôi, suindara! - linda cor..." (110)
"Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar o corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!" (116)
"Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas - e só essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção." (116)
"Achei mesmo que tudo tinha perdido a graça, o de se ver." (136)
Rosa, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Octaedro, Julio Cortázar
Liliana chorando
"É verdade que escrever de vez em quando me acalma, será por isso que há tanta correspondência de condenados à morte, sabe-se lá. Inclusive me diverte imaginar por escrito coisas que apenas pensadas de repente nos entopem a garganta, sem falar das glândulas lacrimais; nas palavras me vejo como se fosse outro..." (9)
Aí, mas onde, como
"não depende da vontade.
é ele subitamente: agora (...)
ele é como um simples presente que se manifesta ou não neste presente sujo, cheio de ecos de passado e obrigações de futuro" (71)
"um homem que foi até a trinta e um anos meu colega de estudos, meu melhor amigo. Não foi necessário que voltasse a meu lado uma outra vez, bastou o primeiro sonho para que eu soubesse que ele estava vivo além ou aquém do sonho e outra vez me invadisse a tristeza, como nas noites da calle Rivadavia quando o via ceder terreno ante uma doença que o ia corroendo a paritir das vísceras, consumindo-o sem pressa na tortura mais perfeita". (75)
"Você há de imaginar que não acredito que você esteja no inferno, acharíamos tanta graça se pudéssemos falar nisso. Mas tem de haver um porquê, não é verdade, você mesmo há de se perguntar por que está vivo aí onde está se vai morrer de novo, se outra vez Claudio precisa vir me buscar, se como há um instante vou subir a escada da calle Rivadavia para encontrá-lo em seu quarto de doente, com aquela cara sem sangue e os olhos como de água, sorrindo-me com lábios desbotados e ressequidos, dando-me uma mão que parece um papelzinho." (76)
"o que vejo dele, o que ouço dele: a doença o aperta, fixa-o nesta última aparência que é minha recordação dele há trinta e um anos; assim está agora, assim é
Por que é que você vive se adoeceu outra vez, se vai morrer outra vez?" (77)
CORTÁZAR, Julio. Octaedro. Civilização Brasileira: São Paulo, 2008.
"É verdade que escrever de vez em quando me acalma, será por isso que há tanta correspondência de condenados à morte, sabe-se lá. Inclusive me diverte imaginar por escrito coisas que apenas pensadas de repente nos entopem a garganta, sem falar das glândulas lacrimais; nas palavras me vejo como se fosse outro..." (9)
Aí, mas onde, como
"não depende da vontade.
é ele subitamente: agora (...)
ele é como um simples presente que se manifesta ou não neste presente sujo, cheio de ecos de passado e obrigações de futuro" (71)
"um homem que foi até a trinta e um anos meu colega de estudos, meu melhor amigo. Não foi necessário que voltasse a meu lado uma outra vez, bastou o primeiro sonho para que eu soubesse que ele estava vivo além ou aquém do sonho e outra vez me invadisse a tristeza, como nas noites da calle Rivadavia quando o via ceder terreno ante uma doença que o ia corroendo a paritir das vísceras, consumindo-o sem pressa na tortura mais perfeita". (75)
"Você há de imaginar que não acredito que você esteja no inferno, acharíamos tanta graça se pudéssemos falar nisso. Mas tem de haver um porquê, não é verdade, você mesmo há de se perguntar por que está vivo aí onde está se vai morrer de novo, se outra vez Claudio precisa vir me buscar, se como há um instante vou subir a escada da calle Rivadavia para encontrá-lo em seu quarto de doente, com aquela cara sem sangue e os olhos como de água, sorrindo-me com lábios desbotados e ressequidos, dando-me uma mão que parece um papelzinho." (76)
"o que vejo dele, o que ouço dele: a doença o aperta, fixa-o nesta última aparência que é minha recordação dele há trinta e um anos; assim está agora, assim é
Por que é que você vive se adoeceu outra vez, se vai morrer outra vez?" (77)
CORTÁZAR, Julio. Octaedro. Civilização Brasileira: São Paulo, 2008.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
O Mito de Sísifo, Albert Camus - Parte I b
O Mito de Sísifo parte I: Um Raciocínio Aburdo (continuação)
Os Muros Absurdos
"as últimas páginas de um livro já estão nas primeiras." (26)
"Um belo dia, surge o "por quê" e tudo começa a entrar numa lassidão tingida de assombro. 'Começa', isto é o importante. A lassidão está ao final dos atos de uma vida maquinal, mas inaugura ao mesmo tempo um movimento da consciência. Ela o desperta e provoca sua continuação. A continuação é um retorno inconsciente aos grilhões, ou é o despertar definitivo. Depois do despertar vem, com o tempo, a conseqüência: suicídio ou restabelecimento." (27)
"Esse mal-estar diante da desumanidade do próprio homem, essa incalculável queda diante da imagem daquilo que somos, essa 'náusea', como diz um autor dos nossos dias, é também o absurdo". (29)
O Suicídio Filosófico
"O único dado, para mim, é o absurdo. A questão é saber como livrar-se dele e se o suicídio deve ser deduzido desse absurdo." (45)
"Tomo aqui a liberdade de chamar de suicídio filosófico a atitude existencial.' (54)
A Liberdade Absurda
"Agora posso abordar a noção de suicídio. Já vimos que solução é possível dar-lhe. Neste ponto, o problema se inverte. Anteriormente tratava-se de saber se a vida devia ter um sentido para ser vivida. Agora parece, pelo contrário, que será tanto melhor vivida quanto menos sentido tiver". (65)
"Viver é fazer que o absurdo viva." (66)
"Aqui se vê como a experiência absurda se afasta do suicídio. (...) à sua maneira, o suicídio resolve o absurdo. Ele o arrasta para a própria morte." (66)
"Que liberdade pode existir sem segurança de eternidade?" (69)
"O absurdo me esclarece o seguinte ponto: não há amanhã. Esta é, a partir de então, a razão da minha liberdade profunda." (70)
"o homem absurdo, totalmente voltado para a morte (tomada aqui como a absurdidade mais evidente), sente-se desligado de tudo o que não é a atenção apaixonada que se cristaliza nele. Saboreia uma liberdade em relação às regras comuns." (70)
"Sentir o máximo possível sua vida, sua revolta, sua liberdade é viver o máximo possível." (74)
Os Muros Absurdos
"as últimas páginas de um livro já estão nas primeiras." (26)
"Um belo dia, surge o "por quê" e tudo começa a entrar numa lassidão tingida de assombro. 'Começa', isto é o importante. A lassidão está ao final dos atos de uma vida maquinal, mas inaugura ao mesmo tempo um movimento da consciência. Ela o desperta e provoca sua continuação. A continuação é um retorno inconsciente aos grilhões, ou é o despertar definitivo. Depois do despertar vem, com o tempo, a conseqüência: suicídio ou restabelecimento." (27)
"Esse mal-estar diante da desumanidade do próprio homem, essa incalculável queda diante da imagem daquilo que somos, essa 'náusea', como diz um autor dos nossos dias, é também o absurdo". (29)
O Suicídio Filosófico
"O único dado, para mim, é o absurdo. A questão é saber como livrar-se dele e se o suicídio deve ser deduzido desse absurdo." (45)
"Tomo aqui a liberdade de chamar de suicídio filosófico a atitude existencial.' (54)
A Liberdade Absurda
"Agora posso abordar a noção de suicídio. Já vimos que solução é possível dar-lhe. Neste ponto, o problema se inverte. Anteriormente tratava-se de saber se a vida devia ter um sentido para ser vivida. Agora parece, pelo contrário, que será tanto melhor vivida quanto menos sentido tiver". (65)
"Viver é fazer que o absurdo viva." (66)
"Aqui se vê como a experiência absurda se afasta do suicídio. (...) à sua maneira, o suicídio resolve o absurdo. Ele o arrasta para a própria morte." (66)
"Que liberdade pode existir sem segurança de eternidade?" (69)
"O absurdo me esclarece o seguinte ponto: não há amanhã. Esta é, a partir de então, a razão da minha liberdade profunda." (70)
"o homem absurdo, totalmente voltado para a morte (tomada aqui como a absurdidade mais evidente), sente-se desligado de tudo o que não é a atenção apaixonada que se cristaliza nele. Saboreia uma liberdade em relação às regras comuns." (70)
"Sentir o máximo possível sua vida, sua revolta, sua liberdade é viver o máximo possível." (74)
segunda-feira, 25 de maio de 2009
O Mito de Sísifo, Albert Camus - Parte I a
O Mito de Sísifo parte I: Um Raciocínio Aburdo
O Absurdo e o Suicídio
"Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia." (17)
"Vejo outros que, paradoxalmente, deixam-se matar pelas idéias ou ilusões que lhes dão uma razão de viver (o que se denomina razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer)." (18)
"Um gesto desses [o suicídio] se prepara no silêncio do coração, da mesma maneira que uma grande obra. O próprio homem o ignora." (18)
"Mas se é difícil fixar o instante preciso, o percurso sutil em que o espírito apostou na morte, é mais simples extrair do gesto em si as consqüências que ele supõe. Matar-se, em certo sentido, e como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos. (...)
Trata-se apenas de confessar que isso "não vale a pena"." (19)
"Continuamos fazendo os gestos que a existência impõe por muitos motivos, o primeiro dos quais é o costume. Morrer por vontade própria supõe que se reconheceu, mesmo instintivamente, o caráter ridículo desse costume, a ausência de qualquer motivo profundo para viver, o caráter insensato da agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento." (19)
"A priori, e invertendo os termos do problema, parece que ou você se mata ou não se mata, só há duas soluções filosóficas, a do sim e a do não. Seria fácil demais. Mas temos que pensar naqueles que não param de interrogar, sem chegar a nenhuma conclusão. E não estou ironizando: trata-se da maioria." (20/21)
"... será então preciso acreditar que não há relação alguma entre a opinião que se tem sobre a vida e o gesto que se faz para abandoná-la?" (21)
"O juízo do corpo tem o mesmo valor que o do espírito, e o corpo recua diante do aniquilamento. Cultivamos o hábito de viver antes de adquirir o de pensar". (21)
"A esquiva mortal (...) é a esperança. Esperança de uma outra vida que é preciso 'merecer', ou truque daqueles que vivem não pela vida em si, mas por alguma grande idéia que a ultrapassa, sublima, lhe dá um sentido e a trai.
Tudo contribui, assim, para embaralhar as cartas. Não foi à toa que até aqui jogamos com as palavras, fingindo acreditar que negar um sentido à vida leva obrigatoriamente a declarar que ela não vale a pena ser vivida. Na verdade, não há nenhuma medida obrigatória entre esses dois juízos". (22)
"Será que seu absurdo [da existência] exige que escapemos dela, pela esperança ou pelo suicídio?" (22)
CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2008
quarta-feira, 20 de maio de 2009
A náusea, Sartre
"As coisas não vão bem! Absolutamente não vão bem: estou com ela, com a sujeira, com a Náusea. E dessa vez é diferente: ela me veio num café." (36)
"Nada mudou, e no entanto tudo existe de outra maneira. Não consigo descrever; é como a Náusea, e no entanto é exatamente o contrário: finalmente me acontece uma aventura e, quando me interrogo, vejo que me acontece que sou eu e que estou aqui; sou eu que fendo a noite, estou feliz como um herói de romance." (87)
"Vejo-me avançar com o sentimento da fatalidade". (87)
"Tudo retornou ao silêncio: mas já não é o mesmo silêncio. Começou a chover: a água bate de leve nas vidraças; se ainda houver crianças fantasiadas nas ruas, a chuva vai amolecer e borrar suas máscaras de papelão." (103)
"É preciso não sentir medo." (111)
"Faz uma hora que estou aqui, os braços caídos, em minha cadeira. Começa a escurecer. Afora isso, nada mudou neste quarto: o papel branco continua na mesa, ao lado da caneta e do tinteiro... (...)
Sinto vontade de dar um salto e sair, de fazer qualquer coisa para me distrair. Mas, se levanto um dedo, se não me mantenho absolutamente imóvel, sei bem o que vai me acontecer. Não quero que isso me aconteça ainda. Isso virá sempre cedo demais. Não me mexo;" (150-151)
"Sobretudo não me mexer, não me mexer... Ah!
Não pude impedir esse movimento de ombros...
A coisa, que estava à espera, alertou-se, precipitou-se sobre mim, penetra em mim, estou pleno dela. - Não é nada: a Coisa sou eu." (152)
"Sinto minha mão. (...); sinto seu peso na mesa que não sou eu. Essa impressão de peso persiste, não passa, persiste. Não há razão para que passe. Com o tempo, isso se torna intolerável... Retiro minha mão, coloco-a em meu bolso. Mas sinto logo, através do tecido, o calor de minha coxa. Faço saltar imediatamente minha mão de meu bolso; deixo-a caída junto ao espaldar da cadeira. Agora sinto seu peso na ponta de meu braço. Ela se estende um pouco, muito pouco, mole, maciamente ela existe. Não insisto: onde quer que a ponha, ela continuará a existir, e eu continuarei a sentir que ela existe; não posso suprimi-la, nem suprimir o resto de meu corpo" (153)
"Meu canivete está sobre a mesa. Abro-o. Por que não?" (154)
"O gesto foi muito nervoso; a lâmina escorregou, a ferida é superficial. Sangra. E afinal? O que foi que mudou? De toda maneira, olho com satisfação, sobre a folha branca, por entre as linhas que tracei há pouco, essa poçazinha de sangue que finalmente deixou de ser eu." (154)
"Farei um curativo em minha mão? Hesito. Olho para o monótono veiozinho de sangue. Começa a coagular. Terminou. Minha pele, em torno do corte, parece enferrujada. Sob a pele resta apenas uma pequena sensação semelhante às outras, talvez ainda mais apagada." (155)
"Sinto frio, dou um passo, sinto frio, um passo, viro à esquerda, louco, estou louco? Ele diz que tem medo de estar louco, a existência, ele pára, o corpo pára, ele pensa que pára, de onde vem? Que faz? Recomeça a andar, sente medo, muito medo, o ignóbil indivíduo, o desejo como uma bruma, o desejo, o nojo, ele diz que está enojado de existir. Está enojado? Cansado e enojado de existir." (157)
"Corre para fugir de si mesmo, para se jogar no lago? Corre, o coração, o coração que bate é uma festa". (157)
"É meio-dia, estou à espera da hora de dormir." (159)
"É estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta." (187)
"Não posso dizer que me sinta aliviado nem contente; ao contrário, sinto-me esmagado. (...) A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a Náusea sou eu." (192)
"E eu - fraco, lânguido, obsceno, digerindo, revolvendo pensamentos sombrios -, também eu era demais. (...) Pensava vagamente em me suprimir, aniquilar pelo menos uma dessas existências supérfluas". (195)
"Não havia nada mais, meus olhos estavam vazios, e minha libertação me encantava." (200)
"Sou livre: já não me resta nenhuma razão para viver, todas as que tentei cederam e já não posso imaginar outras. Ainda sou bastante jovem, ainda tenho força bastante para recomeçar. Mas recomeçar o quê? (...)
Sozinho e livre. Mas essa liberdade se assemelha um pouco à morte." (236)
"A Náusea me concede uma trégua curta. Mas sei que voltará: é meu estado normal". (236)
"Entedio-me, isso é tudo" (237)
"Sei muito bem que não quero fazer nada: fazer alguma coisa é criar existência - e já há existência suficiente sem isso.
A verdade é que não posso soltar minha caneta: acho que vou ter a Náusea, e tenho a impressão de retardá-la enquanto escrevo. Então escrevo o que me passa pela cabeça". (260)
SARTRE, Jean-Paul. A Náusea. São Paulo: Círculo do livro, ___
"Nada mudou, e no entanto tudo existe de outra maneira. Não consigo descrever; é como a Náusea, e no entanto é exatamente o contrário: finalmente me acontece uma aventura e, quando me interrogo, vejo que me acontece que sou eu e que estou aqui; sou eu que fendo a noite, estou feliz como um herói de romance." (87)
"Vejo-me avançar com o sentimento da fatalidade". (87)
"Tudo retornou ao silêncio: mas já não é o mesmo silêncio. Começou a chover: a água bate de leve nas vidraças; se ainda houver crianças fantasiadas nas ruas, a chuva vai amolecer e borrar suas máscaras de papelão." (103)
"É preciso não sentir medo." (111)
"Faz uma hora que estou aqui, os braços caídos, em minha cadeira. Começa a escurecer. Afora isso, nada mudou neste quarto: o papel branco continua na mesa, ao lado da caneta e do tinteiro... (...)
Sinto vontade de dar um salto e sair, de fazer qualquer coisa para me distrair. Mas, se levanto um dedo, se não me mantenho absolutamente imóvel, sei bem o que vai me acontecer. Não quero que isso me aconteça ainda. Isso virá sempre cedo demais. Não me mexo;" (150-151)
"Sobretudo não me mexer, não me mexer... Ah!
Não pude impedir esse movimento de ombros...
A coisa, que estava à espera, alertou-se, precipitou-se sobre mim, penetra em mim, estou pleno dela. - Não é nada: a Coisa sou eu." (152)
"Sinto minha mão. (...); sinto seu peso na mesa que não sou eu. Essa impressão de peso persiste, não passa, persiste. Não há razão para que passe. Com o tempo, isso se torna intolerável... Retiro minha mão, coloco-a em meu bolso. Mas sinto logo, através do tecido, o calor de minha coxa. Faço saltar imediatamente minha mão de meu bolso; deixo-a caída junto ao espaldar da cadeira. Agora sinto seu peso na ponta de meu braço. Ela se estende um pouco, muito pouco, mole, maciamente ela existe. Não insisto: onde quer que a ponha, ela continuará a existir, e eu continuarei a sentir que ela existe; não posso suprimi-la, nem suprimir o resto de meu corpo" (153)
"Meu canivete está sobre a mesa. Abro-o. Por que não?" (154)
"O gesto foi muito nervoso; a lâmina escorregou, a ferida é superficial. Sangra. E afinal? O que foi que mudou? De toda maneira, olho com satisfação, sobre a folha branca, por entre as linhas que tracei há pouco, essa poçazinha de sangue que finalmente deixou de ser eu." (154)
"Farei um curativo em minha mão? Hesito. Olho para o monótono veiozinho de sangue. Começa a coagular. Terminou. Minha pele, em torno do corte, parece enferrujada. Sob a pele resta apenas uma pequena sensação semelhante às outras, talvez ainda mais apagada." (155)
"Sinto frio, dou um passo, sinto frio, um passo, viro à esquerda, louco, estou louco? Ele diz que tem medo de estar louco, a existência, ele pára, o corpo pára, ele pensa que pára, de onde vem? Que faz? Recomeça a andar, sente medo, muito medo, o ignóbil indivíduo, o desejo como uma bruma, o desejo, o nojo, ele diz que está enojado de existir. Está enojado? Cansado e enojado de existir." (157)
"Corre para fugir de si mesmo, para se jogar no lago? Corre, o coração, o coração que bate é uma festa". (157)
"É meio-dia, estou à espera da hora de dormir." (159)
"É estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta." (187)
"Não posso dizer que me sinta aliviado nem contente; ao contrário, sinto-me esmagado. (...) A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a Náusea sou eu." (192)
"E eu - fraco, lânguido, obsceno, digerindo, revolvendo pensamentos sombrios -, também eu era demais. (...) Pensava vagamente em me suprimir, aniquilar pelo menos uma dessas existências supérfluas". (195)
"Não havia nada mais, meus olhos estavam vazios, e minha libertação me encantava." (200)
"Sou livre: já não me resta nenhuma razão para viver, todas as que tentei cederam e já não posso imaginar outras. Ainda sou bastante jovem, ainda tenho força bastante para recomeçar. Mas recomeçar o quê? (...)
Sozinho e livre. Mas essa liberdade se assemelha um pouco à morte." (236)
"A Náusea me concede uma trégua curta. Mas sei que voltará: é meu estado normal". (236)
"Entedio-me, isso é tudo" (237)
"Sei muito bem que não quero fazer nada: fazer alguma coisa é criar existência - e já há existência suficiente sem isso.
A verdade é que não posso soltar minha caneta: acho que vou ter a Náusea, e tenho a impressão de retardá-la enquanto escrevo. Então escrevo o que me passa pela cabeça". (260)
SARTRE, Jean-Paul. A Náusea. São Paulo: Círculo do livro, ___
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Le Solitaire, Eugène Ionesco
"Et pourtant je me sentais mal à l'aise dans ma peau."
"Il est probable que l'univers n'est ni fini ni infini, les mots fini ou infini étant des expressions qui ne veulent rien dire."
"Je n'ai pas de désirs ou j'en ai peu ou je n'en ai plus. Si j'en ai, ils ne valent pas d'être exploités et survoltés. Peut-être que j'ai des désirs tout de même. Mais ils dorment. Je ne tiens pas à les réveiller. Qu'ai-je comme désirs? Que l'on me fiche la paix. Que les désirs des autres me laissent tranquille et qu'ils ne veuillent pas m'engager à leur suite. Je désire surtout ne pas avoir de désirs. Je m'aperçois que j'en ai pourtant. Bon, le désir des femmes s'est éteint. Pour toujours j'espère. D'ailleurs je ne désirais que faiblement. C'est ce que m'a sauvé des femmes, mais j'ai tout de même envie de boire du vin. Cela réveille un petit peu ou cela entretient un très léger désir de vivre. Autrement, tout se serait déjà éteint, je serais déjà mort."
"Entouré par le monde mais pas au monde."
"Nous subissons. Je subis. Que je me contente de subir. Voilà déjà la résignation. Et chaque fois qu'il y a un peu de résignation en moi, je me sens soulagé. Une sorte de calme, un repos. Je vais m'endormir. Sois calme."
"Chaque aube est un commencement ou un recommencement. C'est une résurrection. La mort s'éloigne, elle va se cacher hors du jour."
"J'ai le vertige et j'ai peur de l'ennui; (...) Si on écrit sur l'ennui, c'est que l'on ne s'ennuie pas. L'ennui paralyse ou ne vous fait faire que des actions destructrices ou vous met dans un état voisin de la mort. C'était insupportable. Personne ne pouvai m'aider. Je ne pouvais m'accrocher à rien."
"Ce n'était pas l'angoisse, c'était l'ennui, un ennui matériel, un ennui physique, ni bouger, ni rester ni assis ni débout. Tout était souffrance, gangrène de l'âme. (...) L'ennui est pire que l'angoisse, c'est même le contraire, quand on est angoissé, on ne s'ennuie plus; je passais comme ça de l'ennui à l'angoisse, de l'angoisse à l'ennui."
"Un mort qui ne serait pas mort, un vivant qui ne serait plus vivant."
"Ce mal de tête et cette nausée! Il y avait un seul remède: le verre de cognac, plutôt deux verres de cognac".
"La nausée du vide. Et puis la nausée du trop-plein. Comment cela pouvait-il tenir encore et opur combien de temps, si le temps était. Il n'y avait peut-être que de l'instantané."
"J'avais surtout le sentiment d'un manque".
IONESCO, Eugène. Le solitaire. Paris: Mercure de France, 1973.
"Il est probable que l'univers n'est ni fini ni infini, les mots fini ou infini étant des expressions qui ne veulent rien dire."
"Je n'ai pas de désirs ou j'en ai peu ou je n'en ai plus. Si j'en ai, ils ne valent pas d'être exploités et survoltés. Peut-être que j'ai des désirs tout de même. Mais ils dorment. Je ne tiens pas à les réveiller. Qu'ai-je comme désirs? Que l'on me fiche la paix. Que les désirs des autres me laissent tranquille et qu'ils ne veuillent pas m'engager à leur suite. Je désire surtout ne pas avoir de désirs. Je m'aperçois que j'en ai pourtant. Bon, le désir des femmes s'est éteint. Pour toujours j'espère. D'ailleurs je ne désirais que faiblement. C'est ce que m'a sauvé des femmes, mais j'ai tout de même envie de boire du vin. Cela réveille un petit peu ou cela entretient un très léger désir de vivre. Autrement, tout se serait déjà éteint, je serais déjà mort."
"Entouré par le monde mais pas au monde."
"Nous subissons. Je subis. Que je me contente de subir. Voilà déjà la résignation. Et chaque fois qu'il y a un peu de résignation en moi, je me sens soulagé. Une sorte de calme, un repos. Je vais m'endormir. Sois calme."
"Chaque aube est un commencement ou un recommencement. C'est une résurrection. La mort s'éloigne, elle va se cacher hors du jour."
"J'ai le vertige et j'ai peur de l'ennui; (...) Si on écrit sur l'ennui, c'est que l'on ne s'ennuie pas. L'ennui paralyse ou ne vous fait faire que des actions destructrices ou vous met dans un état voisin de la mort. C'était insupportable. Personne ne pouvai m'aider. Je ne pouvais m'accrocher à rien."
"Ce n'était pas l'angoisse, c'était l'ennui, un ennui matériel, un ennui physique, ni bouger, ni rester ni assis ni débout. Tout était souffrance, gangrène de l'âme. (...) L'ennui est pire que l'angoisse, c'est même le contraire, quand on est angoissé, on ne s'ennuie plus; je passais comme ça de l'ennui à l'angoisse, de l'angoisse à l'ennui."
"Un mort qui ne serait pas mort, un vivant qui ne serait plus vivant."
"Ce mal de tête et cette nausée! Il y avait un seul remède: le verre de cognac, plutôt deux verres de cognac".
"La nausée du vide. Et puis la nausée du trop-plein. Comment cela pouvait-il tenir encore et opur combien de temps, si le temps était. Il n'y avait peut-être que de l'instantané."
"J'avais surtout le sentiment d'un manque".
IONESCO, Eugène. Le solitaire. Paris: Mercure de France, 1973.
Os passos perdidos
"E assim como o pecador despeja diante do confessionário o saco negro de suas iniqüidades e concupiscências - levado por um tipo de euforia de falar mal de si mesmo que chega à ânsia de execração -, pinto a meu mestre, com as cores mais sujas, com os betumes mais feios, a inutilidade de minha vida, seu atordoamento durante o dia, sua inconsciência durante a noite."
CARPENTIER, Alejo. Os passos perdidos. São Paulo: Brasiliense, 1985
CARPENTIER, Alejo. Os passos perdidos. São Paulo: Brasiliense, 1985
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