quarta-feira, 20 de maio de 2009

A náusea, Sartre

"As coisas não vão bem! Absolutamente não vão bem: estou com ela, com a sujeira, com a Náusea. E dessa vez é diferente: ela me veio num café." (36)

"Nada mudou, e no entanto tudo existe de outra maneira. Não consigo descrever; é como a Náusea, e no entanto é exatamente o contrário: finalmente me acontece uma aventura e, quando me interrogo, vejo que me acontece que sou eu e que estou aqui; sou eu que fendo a noite, estou feliz como um herói de romance." (87)

"Vejo-me avançar com o sentimento da fatalidade". (87)

"Tudo retornou ao silêncio: mas já não é o mesmo silêncio. Começou a chover: a água bate de leve nas vidraças; se ainda houver crianças fantasiadas nas ruas, a chuva vai amolecer e borrar suas máscaras de papelão." (103)

"É preciso não sentir medo." (111)

"Faz uma hora que estou aqui, os braços caídos, em minha cadeira. Começa a escurecer. Afora isso, nada mudou neste quarto: o papel branco continua na mesa, ao lado da caneta e do tinteiro... (...)
Sinto vontade de dar um salto e sair, de fazer qualquer coisa para me distrair. Mas, se levanto um dedo, se não me mantenho absolutamente imóvel, sei bem o que vai me acontecer. Não quero que isso me aconteça ainda. Isso virá sempre cedo demais. Não me mexo;" (150-151)

"Sobretudo não me mexer, não me mexer... Ah!
Não pude impedir esse movimento de ombros...
A coisa, que estava à espera, alertou-se, precipitou-se sobre mim, penetra em mim, estou pleno dela. - Não é nada: a Coisa sou eu." (152)

"Sinto minha mão. (...); sinto seu peso na mesa que não sou eu. Essa impressão de peso persiste, não passa, persiste. Não há razão para que passe. Com o tempo, isso se torna intolerável... Retiro minha mão, coloco-a em meu bolso. Mas sinto logo, através do tecido, o calor de minha coxa. Faço saltar imediatamente minha mão de meu bolso; deixo-a caída junto ao espaldar da cadeira. Agora sinto seu peso na ponta de meu braço. Ela se estende um pouco, muito pouco, mole, maciamente ela existe. Não insisto: onde quer que a ponha, ela continuará a existir, e eu continuarei a sentir que ela existe; não posso suprimi-la, nem suprimir o resto de meu corpo" (153)

"Meu canivete está sobre a mesa. Abro-o. Por que não?" (154)

"O gesto foi muito nervoso; a lâmina escorregou, a ferida é superficial. Sangra. E afinal? O que foi que mudou? De toda maneira, olho com satisfação, sobre a folha branca, por entre as linhas que tracei há pouco, essa poçazinha de sangue que finalmente deixou de ser eu." (154)

"Farei um curativo em minha mão? Hesito. Olho para o monótono veiozinho de sangue. Começa a coagular. Terminou. Minha pele, em torno do corte, parece enferrujada. Sob a pele resta apenas uma pequena sensação semelhante às outras, talvez ainda mais apagada." (155)

"Sinto frio, dou um passo, sinto frio, um passo, viro à esquerda, louco, estou louco? Ele diz que tem medo de estar louco, a existência, ele pára, o corpo pára, ele pensa que pára, de onde vem? Que faz? Recomeça a andar, sente medo, muito medo, o ignóbil indivíduo, o desejo como uma bruma, o desejo, o nojo, ele diz que está enojado de existir. Está enojado? Cansado e enojado de existir." (157)

"Corre para fugir de si mesmo, para se jogar no lago? Corre, o coração, o coração que bate é uma festa". (157)

"É meio-dia, estou à espera da hora de dormir." (159)

"É estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta." (187)

"Não posso dizer que me sinta aliviado nem contente; ao contrário, sinto-me esmagado. (...) A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a Náusea sou eu." (192)

"E eu - fraco, lânguido, obsceno, digerindo, revolvendo pensamentos sombrios -, também eu era demais. (...) Pensava vagamente em me suprimir, aniquilar pelo menos uma dessas existências supérfluas". (195)

"Não havia nada mais, meus olhos estavam vazios, e minha libertação me encantava." (200)

"Sou livre: já não me resta nenhuma razão para viver, todas as que tentei cederam e já não posso imaginar outras. Ainda sou bastante jovem, ainda tenho força bastante para recomeçar. Mas recomeçar o quê? (...)
Sozinho e livre. Mas essa liberdade se assemelha um pouco à morte." (236)

"A Náusea me concede uma trégua curta. Mas sei que voltará: é meu estado normal". (236)

"Entedio-me, isso é tudo" (237)

"Sei muito bem que não quero fazer nada: fazer alguma coisa é criar existência - e já há existência suficiente sem isso.
A verdade é que não posso soltar minha caneta: acho que vou ter a Náusea, e tenho a impressão de retardá-la enquanto escrevo. Então escrevo o que me passa pela cabeça". (260)


SARTRE, Jean-Paul. A Náusea. São Paulo: Círculo do livro, ___

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