Liliana chorando
"É verdade que escrever de vez em quando me acalma, será por isso que há tanta correspondência de condenados à morte, sabe-se lá. Inclusive me diverte imaginar por escrito coisas que apenas pensadas de repente nos entopem a garganta, sem falar das glândulas lacrimais; nas palavras me vejo como se fosse outro..." (9)
Aí, mas onde, como
"não depende da vontade.
é ele subitamente: agora (...)
ele é como um simples presente que se manifesta ou não neste presente sujo, cheio de ecos de passado e obrigações de futuro" (71)
"um homem que foi até a trinta e um anos meu colega de estudos, meu melhor amigo. Não foi necessário que voltasse a meu lado uma outra vez, bastou o primeiro sonho para que eu soubesse que ele estava vivo além ou aquém do sonho e outra vez me invadisse a tristeza, como nas noites da calle Rivadavia quando o via ceder terreno ante uma doença que o ia corroendo a paritir das vísceras, consumindo-o sem pressa na tortura mais perfeita". (75)
"Você há de imaginar que não acredito que você esteja no inferno, acharíamos tanta graça se pudéssemos falar nisso. Mas tem de haver um porquê, não é verdade, você mesmo há de se perguntar por que está vivo aí onde está se vai morrer de novo, se outra vez Claudio precisa vir me buscar, se como há um instante vou subir a escada da calle Rivadavia para encontrá-lo em seu quarto de doente, com aquela cara sem sangue e os olhos como de água, sorrindo-me com lábios desbotados e ressequidos, dando-me uma mão que parece um papelzinho." (76)
"o que vejo dele, o que ouço dele: a doença o aperta, fixa-o nesta última aparência que é minha recordação dele há trinta e um anos; assim está agora, assim é
Por que é que você vive se adoeceu outra vez, se vai morrer outra vez?" (77)
CORTÁZAR, Julio. Octaedro. Civilização Brasileira: São Paulo, 2008.
Nenhum comentário:
Postar um comentário