segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Diários, Virginia Woolf pt.2

1926

"Quarta, 30 de junho

(...) tão infeliz quanto nestes dez anos; e ruminei isso no sono e em sonhos a noite inteira; e o dia de hoje foi estragado." (121)



"Sábado, 31 de julho

Meu Cérebro

Eis um colapso de nervos total em miniatura. Chegamos na terça. Prostrada em uma cadeira, mal podia levantar-me; tudo monótono; sem gosto, sem cor. Desejo enorme de descansar. Quarta - só vontade de ficar sozinha ao ar livre. Ar delicioso - evitei falar; não consegui ler. Pensei em minha capacidade de escrever com veneração, como se algo inacreditável, pertencente a outrem; de que jamais voltasse a desfrutar. Cabeça um vazio. Dormi em minha cadeira. Quinta. Nem sequer um prazer de viver; mas me senti talvez em maior harmonia com a existência. Índole e idiossincrasia de Virginia Woolf completamente extintas." (130)



1928

"Quarta, 28 de novembro

(...)

Assim passam os dias, e me pergunto às vezes se não estou hipnotizada, como uma criança por um globo de prata, pela vida; e se isto é vida. É muito veloz, luminosa, emocionante. Mas superficial talvez. Gostaria de ter o globo nas mãos e tocá-lo com vagar, redondo, liso, pesado. E assim segurá-lo, dia após dia. Acho que vou ler Proust. Do fim ao começo e do começo ao fim." (166)



1930

"Domingo, 16 de fevereiro

Ficar deitada no sofá durante uma semana." (176)



1932

"Quarta, 17 de agosto

(...)

Devo então descrever o desmaio que tive de novo? - Quer dizer os cavalos galopantes desembestaram em minha cabeça na última noite de quinta enquanto estava com L. no terraço. Quão fresco fica passado o calor! eu disse." (204)



1936

"Domingo, 21 de junho

Depois de uma semana de intenso sofrimento - na verdade manhãs de tortura - e não exagero - dor na cabeça - uma sensação de desespero e de fracasso absolutos - a cabeça lá dentro como as narinas depois de uma rinite alérgica - esta volta a ser uma calma e fresca manhã, uma sensação de alívio; trégua: esperança." (235)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Diários, Virgínia Woolf pt.1

1918

"Terça, 10 de setembro
Passei os primeiros cinco minutos com este livro a minha frente tentando pescar, com a ponta da pena, duas moscas afogadas no tinteiro; mas começo a perceber que esta é uma daquelas empresas realmente impossíveis - absolutamente impossíveis. Nem Darwin nem Platão conseguiriam realizá-la com a ponta desta pena. E agora as moscas estão inchando e se dissolvendo;" (37)

1919

"Quarta, 19 de março
A vida se acumula tão depressa que não tenho tempo de escrever as reflexões que se amontoam com a mesma rapidez," (43)

"Domingo (Páscoa), 20 de abril
(...) Enquanto isso, as folhas viçosas abriam-se pelo menos um centímetro em seus invólucros, e hoje a árvore diante da janela apresenta folhinhas perfeitamente formadas, e a árvore do fundo do jardim mostra o verde que conservará até setembro." (48)

"Segunda, 12 de maio
(...)
E suponho que essas névoas do espírito têm outras causas; embora estejam profundamente ocultas. Existe um certo fluxo e refluxo na maré da vida que as explicam; embora eu não saiba ao certo o que produz o fluxo ou o refluxo." (51)

1921

"Quinta, 18 de agosto
(...) e então o sol iria se pôr, e a casa, e um pouco de poesia após o jantar, meio lida, meio vivida, como se a carne se tivesse dissolvido e através dela brotassem flores vermelhas e brancas." (80)

"Na verdade, qualquer interferência nas proporções normais das coisas deixa-me inquieta. Conheço muito bem este quarto - muito bem esta paisagem - percebo tudo fora de foco, porque não posso andar por ele." (81)

"Quarta, 28 de setembro
A visita de Eliot correu bem, e contudo estou desapontada com o fato de que não tenho mais medo dele -" (81)

1922

"Quarta, 16 de agosto
Devia estar lendo Ulysses e engendrando meus argumentos a favor e contra. Li 200 páginas até agora - nem um terço; e os primeiros 2 ou 3 capítulos me divertiram, me estimularam, me encantaram, me interessaram - até o final da cena do Cemitério; e depois fiquei confusa, enfastiada, irritada e desiludida, como se ele fosse um universitário nauseabundo remexendo nas espinhas do rosto." (86)

1923

"Terça, 2 de janeiro
(...); e depois meu romantismo inveterado sugere uma imagem de alguém que avança rapidamente, sozinha, dentro da noite: de sofrimento interior, estóico; de ir abrindo o caminho que percorro até o fim - e assim por diante. A verdade é que as velas oscilam a minha volta por um ou dois dias em meu regresso; e, não estando muito esticadas, pondero e tardo." (91)

"A vida da gente é feita, superficialmente, desses estados de espírito; mas eles atravessam uma substância sólida, que também não vou me esforçar para desembaraçar." (92)

"Quinta, 28 de junho
(...) poderia ouvir música, dar uma olhada em um quadro, ou descobrir algo no Museu Britânico, ou ir aventurar-me entre os seres humanos." (100)

1924
"Segunda, 15 de setembro
(...)
(Ocorre-me que neste caderno exercito literatura; estabeleço meus padrões; sim e trabalho certos efeitos. Acho que exercitei Jacob aqui -, e Mrs D. e inventarei meu próximo livro aqui; porque aqui escrevo apenas a intimidade - o que é também muito divertido, e a velha V. de 1940 haverá de ver nele alguma coisa também. Ela haverá de ser uma mulher capaz de ver, a velha V.: tudo - mais do que sou capaz eu acho. Mas agora estou cansada.)" (108)


Os diários de Virginia Woolf. São Paulo: Editora Schwarcz Ltda, 1989.

Papéis Inesperados, Julio Cortázar

Relato com um fundo de água

"chega de repetir seu nome até a náusea. Você não parece perceber que há frases, que há lembranças insuportáveis para mim; que todas as fibras se rebelam se essas coisas são ditas." (35)

"Eu estou farto, farto; estou morto, entende? Não, não entende, mas escute, agora, escute tudo e só me interrompa para me dar um tiro ou me afogar..." (36)

"você tem que ouvir isto até o final. depois pode fazer o que quiser; há um revolver na minha escrivaninha e um telefone na sala. Mas agora, fique." (40)

"Cansados mutuamente de inúteis concessões, de perpetuar afetos que nele já haviam morrido e que eu precisava matar por minha vez..." (41)


CORTÁZAR, Julio. Papéis inesperados. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

domingo, 12 de setembro de 2010

Sêneca, Cartas a Lucílio

"Queres saber qual é a coisa que com maior empenho deves evitar? A multidão! Ainda não estás em estado de frequentá-la em segurança. Eu confesso-te sem rodeios a minha própria fraqueza: nunca regresso com o mesmo carácter com que saí de casa; algo do que já pusera em ordem é alterado, algo do que já conseguira eliminar, regressa!
(...)
Que pensas tu que eu quero dizer? Que regresso mais avaro, mais ambicioso, mais propenso ao luxo? Mais do que isso: venho mais cruel e mais desumano de ter estado em contacto com os homens."


Sêneca, Lúcio Aneu. Cartas a Lucílio. Lisboa: Gulbenkian, 1991.

domingo, 22 de agosto de 2010

Molloy, Samuel Beckett

" E estou de novo não diria só, não, não é do meu feitio, mas, como dizer, não sei, de volta a mim mesmo, não, nunca me deixei, livre, aí está, não sei o que isto quer dizer, mas é a palavra que ouço empregarem, livre para fazer o quê, para não fazer nada, para saber, mas o quê, as leis da consciência talvez, da minha consciência, que por exemplo a água sobe à medida que alguém afunda e que seria melhor, enfim, tão bom, apagar os textos em vez de escurecer as margens, tapá-los até que fique tudo branco e liso, e que a idiotice assuma sua verdadeira face, uma desgraça sem sentido e sem saída." (31)





"Isso tem a aparência de um descanso, mas não é nada disso, deslizo contente na luz dos outros, aquela que antigamente devia ser a minha, não digo o contrário, depois é a angústia do retorno, não direi para onde ,não posso, para a ausência talvez, é preciso voltar para lá, é tudo que sei, não faz bem ficar nela, não faz bem deixá-la." (68)





"De tanto chamar isso de minha vida vou acabar acreditando." (81)





"Para falar a verdade, do ponto de vista da cenestesia, entenda-se, me sentia mais ou menos como sempre, ou seja - atenção, vou dar o serviço -, de um nervosismo tão fremente que perdia de certo modo a sensibilidade, para não dizer a consciência, e flutuava no fundo de um torpor misericordioso atravessado por breves e abomináveis clarões, é como tenho a honra de lhes contar." (82)


BECKETT, Samuel. Molloy. São Paulo: Globo, 2007.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

"I'll die your maid: to be your fellow

You may deny me; but I'll be your servant,

Whether you will or no."



(Miranda)
Shakespeare, The tempest

domingo, 18 de julho de 2010

O som e a fúria, William Faulkner

"Era o relógio de meu avô, e quando o ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o mausoléu de toda esperança e todo desejo; é extremamente provável que você o use para lograr o reducto absurdum de toda experiência humana, que será tão pouco adaptado às suas necessidades individuais quanto foi às dele e às do pai dele. Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhuma batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e néscios." (73)



Faulkner, William. O som e a fúria. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald

"Cada noite ele fazia acréscimos à tapeçaria de suas fantasias até que a sonolência baixava sobre alguma cena vívida e a cobria de esquecimento. Durante algum tempo esses devaneios proporcionaram um escape à sua imaginação; eram uma insinuação satisfatória do caráter irreal da realidade, uma promessa de que o rochedo do mundo estava apoiado com firmeza nas asas de uma fada." (117)

"É invariavelmente entristecedor olhar com novos olhos coisas sobre as quais consumimos nossos próprios poderes de ajustamento." (123)


Fitzgerald, F. Scott. O grande Gatsby. Tradução Roberto Muggiati. Rio de Janeiro: BestBolso, 2007.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Clarice, - Benjamin Moser

"A diferença entre o místico e o louco é que o místico pode voltar, emergindo do estado de graça e encontrando uma linguagem humana para descrevê-lo". (p.323)



(Moser, Benjamin. Clarice,. São Paulo: Cosac Naify, 2009.)

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