1926
"Quarta, 30 de junho
(...) tão infeliz quanto nestes dez anos; e ruminei isso no sono e em sonhos a noite inteira; e o dia de hoje foi estragado." (121)
"Sábado, 31 de julho
Meu Cérebro
Eis um colapso de nervos total em miniatura. Chegamos na terça. Prostrada em uma cadeira, mal podia levantar-me; tudo monótono; sem gosto, sem cor. Desejo enorme de descansar. Quarta - só vontade de ficar sozinha ao ar livre. Ar delicioso - evitei falar; não consegui ler. Pensei em minha capacidade de escrever com veneração, como se algo inacreditável, pertencente a outrem; de que jamais voltasse a desfrutar. Cabeça um vazio. Dormi em minha cadeira. Quinta. Nem sequer um prazer de viver; mas me senti talvez em maior harmonia com a existência. Índole e idiossincrasia de Virginia Woolf completamente extintas." (130)
1928
"Quarta, 28 de novembro
(...)
Assim passam os dias, e me pergunto às vezes se não estou hipnotizada, como uma criança por um globo de prata, pela vida; e se isto é vida. É muito veloz, luminosa, emocionante. Mas superficial talvez. Gostaria de ter o globo nas mãos e tocá-lo com vagar, redondo, liso, pesado. E assim segurá-lo, dia após dia. Acho que vou ler Proust. Do fim ao começo e do começo ao fim." (166)
1930
"Domingo, 16 de fevereiro
Ficar deitada no sofá durante uma semana." (176)
1932
"Quarta, 17 de agosto
(...)
Devo então descrever o desmaio que tive de novo? - Quer dizer os cavalos galopantes desembestaram em minha cabeça na última noite de quinta enquanto estava com L. no terraço. Quão fresco fica passado o calor! eu disse." (204)
1936
"Domingo, 21 de junho
Depois de uma semana de intenso sofrimento - na verdade manhãs de tortura - e não exagero - dor na cabeça - uma sensação de desespero e de fracasso absolutos - a cabeça lá dentro como as narinas depois de uma rinite alérgica - esta volta a ser uma calma e fresca manhã, uma sensação de alívio; trégua: esperança." (235)
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Diários, Virgínia Woolf pt.1
1918
"Terça, 10 de setembro
Passei os primeiros cinco minutos com este livro a minha frente tentando pescar, com a ponta da pena, duas moscas afogadas no tinteiro; mas começo a perceber que esta é uma daquelas empresas realmente impossíveis - absolutamente impossíveis. Nem Darwin nem Platão conseguiriam realizá-la com a ponta desta pena. E agora as moscas estão inchando e se dissolvendo;" (37)
1919
"Quarta, 19 de março
A vida se acumula tão depressa que não tenho tempo de escrever as reflexões que se amontoam com a mesma rapidez," (43)
"Domingo (Páscoa), 20 de abril
(...) Enquanto isso, as folhas viçosas abriam-se pelo menos um centímetro em seus invólucros, e hoje a árvore diante da janela apresenta folhinhas perfeitamente formadas, e a árvore do fundo do jardim mostra o verde que conservará até setembro." (48)
"Segunda, 12 de maio
(...)
E suponho que essas névoas do espírito têm outras causas; embora estejam profundamente ocultas. Existe um certo fluxo e refluxo na maré da vida que as explicam; embora eu não saiba ao certo o que produz o fluxo ou o refluxo." (51)
1921
"Quinta, 18 de agosto
(...) e então o sol iria se pôr, e a casa, e um pouco de poesia após o jantar, meio lida, meio vivida, como se a carne se tivesse dissolvido e através dela brotassem flores vermelhas e brancas." (80)
"Na verdade, qualquer interferência nas proporções normais das coisas deixa-me inquieta. Conheço muito bem este quarto - muito bem esta paisagem - percebo tudo fora de foco, porque não posso andar por ele." (81)
"Quarta, 28 de setembro
A visita de Eliot correu bem, e contudo estou desapontada com o fato de que não tenho mais medo dele -" (81)
1922
"Quarta, 16 de agosto
Devia estar lendo Ulysses e engendrando meus argumentos a favor e contra. Li 200 páginas até agora - nem um terço; e os primeiros 2 ou 3 capítulos me divertiram, me estimularam, me encantaram, me interessaram - até o final da cena do Cemitério; e depois fiquei confusa, enfastiada, irritada e desiludida, como se ele fosse um universitário nauseabundo remexendo nas espinhas do rosto." (86)
1923
"Terça, 2 de janeiro
(...); e depois meu romantismo inveterado sugere uma imagem de alguém que avança rapidamente, sozinha, dentro da noite: de sofrimento interior, estóico; de ir abrindo o caminho que percorro até o fim - e assim por diante. A verdade é que as velas oscilam a minha volta por um ou dois dias em meu regresso; e, não estando muito esticadas, pondero e tardo." (91)
"A vida da gente é feita, superficialmente, desses estados de espírito; mas eles atravessam uma substância sólida, que também não vou me esforçar para desembaraçar." (92)
"Quinta, 28 de junho
(...) poderia ouvir música, dar uma olhada em um quadro, ou descobrir algo no Museu Britânico, ou ir aventurar-me entre os seres humanos." (100)
1924
"Segunda, 15 de setembro
(...)
(Ocorre-me que neste caderno exercito literatura; estabeleço meus padrões; sim e trabalho certos efeitos. Acho que exercitei Jacob aqui -, e Mrs D. e inventarei meu próximo livro aqui; porque aqui escrevo apenas a intimidade - o que é também muito divertido, e a velha V. de 1940 haverá de ver nele alguma coisa também. Ela haverá de ser uma mulher capaz de ver, a velha V.: tudo - mais do que sou capaz eu acho. Mas agora estou cansada.)" (108)
Os diários de Virginia Woolf. São Paulo: Editora Schwarcz Ltda, 1989.
"Terça, 10 de setembro
Passei os primeiros cinco minutos com este livro a minha frente tentando pescar, com a ponta da pena, duas moscas afogadas no tinteiro; mas começo a perceber que esta é uma daquelas empresas realmente impossíveis - absolutamente impossíveis. Nem Darwin nem Platão conseguiriam realizá-la com a ponta desta pena. E agora as moscas estão inchando e se dissolvendo;" (37)
1919
"Quarta, 19 de março
A vida se acumula tão depressa que não tenho tempo de escrever as reflexões que se amontoam com a mesma rapidez," (43)
"Domingo (Páscoa), 20 de abril
(...) Enquanto isso, as folhas viçosas abriam-se pelo menos um centímetro em seus invólucros, e hoje a árvore diante da janela apresenta folhinhas perfeitamente formadas, e a árvore do fundo do jardim mostra o verde que conservará até setembro." (48)
"Segunda, 12 de maio
(...)
E suponho que essas névoas do espírito têm outras causas; embora estejam profundamente ocultas. Existe um certo fluxo e refluxo na maré da vida que as explicam; embora eu não saiba ao certo o que produz o fluxo ou o refluxo." (51)
1921
"Quinta, 18 de agosto
(...) e então o sol iria se pôr, e a casa, e um pouco de poesia após o jantar, meio lida, meio vivida, como se a carne se tivesse dissolvido e através dela brotassem flores vermelhas e brancas." (80)
"Na verdade, qualquer interferência nas proporções normais das coisas deixa-me inquieta. Conheço muito bem este quarto - muito bem esta paisagem - percebo tudo fora de foco, porque não posso andar por ele." (81)
"Quarta, 28 de setembro
A visita de Eliot correu bem, e contudo estou desapontada com o fato de que não tenho mais medo dele -" (81)
1922
"Quarta, 16 de agosto
Devia estar lendo Ulysses e engendrando meus argumentos a favor e contra. Li 200 páginas até agora - nem um terço; e os primeiros 2 ou 3 capítulos me divertiram, me estimularam, me encantaram, me interessaram - até o final da cena do Cemitério; e depois fiquei confusa, enfastiada, irritada e desiludida, como se ele fosse um universitário nauseabundo remexendo nas espinhas do rosto." (86)
1923
"Terça, 2 de janeiro
(...); e depois meu romantismo inveterado sugere uma imagem de alguém que avança rapidamente, sozinha, dentro da noite: de sofrimento interior, estóico; de ir abrindo o caminho que percorro até o fim - e assim por diante. A verdade é que as velas oscilam a minha volta por um ou dois dias em meu regresso; e, não estando muito esticadas, pondero e tardo." (91)
"A vida da gente é feita, superficialmente, desses estados de espírito; mas eles atravessam uma substância sólida, que também não vou me esforçar para desembaraçar." (92)
"Quinta, 28 de junho
(...) poderia ouvir música, dar uma olhada em um quadro, ou descobrir algo no Museu Britânico, ou ir aventurar-me entre os seres humanos." (100)
1924
"Segunda, 15 de setembro
(...)
(Ocorre-me que neste caderno exercito literatura; estabeleço meus padrões; sim e trabalho certos efeitos. Acho que exercitei Jacob aqui -, e Mrs D. e inventarei meu próximo livro aqui; porque aqui escrevo apenas a intimidade - o que é também muito divertido, e a velha V. de 1940 haverá de ver nele alguma coisa também. Ela haverá de ser uma mulher capaz de ver, a velha V.: tudo - mais do que sou capaz eu acho. Mas agora estou cansada.)" (108)
Os diários de Virginia Woolf. São Paulo: Editora Schwarcz Ltda, 1989.
Papéis Inesperados, Julio Cortázar
Relato com um fundo de água
"chega de repetir seu nome até a náusea. Você não parece perceber que há frases, que há lembranças insuportáveis para mim; que todas as fibras se rebelam se essas coisas são ditas." (35)
"Eu estou farto, farto; estou morto, entende? Não, não entende, mas escute, agora, escute tudo e só me interrompa para me dar um tiro ou me afogar..." (36)
"você tem que ouvir isto até o final. depois pode fazer o que quiser; há um revolver na minha escrivaninha e um telefone na sala. Mas agora, fique." (40)
"Cansados mutuamente de inúteis concessões, de perpetuar afetos que nele já haviam morrido e que eu precisava matar por minha vez..." (41)
CORTÁZAR, Julio. Papéis inesperados. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
"chega de repetir seu nome até a náusea. Você não parece perceber que há frases, que há lembranças insuportáveis para mim; que todas as fibras se rebelam se essas coisas são ditas." (35)
"Eu estou farto, farto; estou morto, entende? Não, não entende, mas escute, agora, escute tudo e só me interrompa para me dar um tiro ou me afogar..." (36)
"você tem que ouvir isto até o final. depois pode fazer o que quiser; há um revolver na minha escrivaninha e um telefone na sala. Mas agora, fique." (40)
"Cansados mutuamente de inúteis concessões, de perpetuar afetos que nele já haviam morrido e que eu precisava matar por minha vez..." (41)
CORTÁZAR, Julio. Papéis inesperados. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
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