"Kimie perguntava algumas coisas a Hideo, não tudo, pois era esposa, e sua curiosidade era maior que a paciência do marido. Hideo respondia o que sabia com o orgulho de quem sabe e o que não sabia com o orgulho de quem não sabe." (18)
"Kimie sorriu o seu sorriso pequeno - não que fosse pequeno o seu contentamento, mas era o sorriso que sabia sorrir" (26)
"Dobrou a carta com cuidado e a devolveu ao envelope como se aquele gesto que invertia a ação pudesse fazê-lo voltar do avesso onde fora lançado." (57)
"- Para okachan, respeito significa ficar quieta mesmo quando não concorda com alguma coisa." (94)
"Eu não quero viver sem você, mas também não sei o que é viver com você. O que eu sei é que tenho medo de perder o que tenho agora." (114)
NAKASATO, Oscar. Nihonjin. São Paulo: Benvirá, 2011.
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Emília Galotti - Lessing
"No longo percurso que começa no olho, passa pelo braço e chega até o pincel, quanto não se perde! Mas, como disse, tenho noção de quanto foi perdido aqui, e como foi perdido, e por que teve que ser perdido: e disso tenho igualmente orgulho, mais orgulho do que por tudo o que não deixei se perder. Pois é no que foi perdido que reconheço, mais do que naquilo que não se perdeu, que sou realmente um grande pintor, embora minha mão nem sempre o seja." (31)
"Diante de uma tal esposa, ela crê que a amante pode continuar tendo seu lugar. Não é por uma esposa assim que ela teme ser sacrificada, mas...
PRÍNCIPE - Por uma nova amante." (35)
"Ela buscou refúgio junto aos livros, e eu temo que estes haverão de dar-lhe o golpe final." (35)
"Como vedes, estou à merce das ondas: de que adianta ficar perguntando como elas me arrebataram? Salvai-me se puderdes, e perguntai depois." (40)
"Mas o vício alheio pode nos tornar cúmplices contra a nossa vontade!" (52)
"... um veneno que não age imediatamente não é um veneno menos perigoso." (55)
"Não haveria meu silêncio de multiplicar, mais cedo ou mais tarde, seu desassossego? Penso que o melhor seria não-lhe ocultar nada." (55)
"Eu não deveria ter-vos inquietado com qualquer confissão pela qual não posso esperar ser gratificado. Além disso, fui suficientemente punido pela muda consternação com que me ouvistes, ou melhor, não ouvistes." (77)
"Não duvideis um segundo sequer do poder ilimitado que tendes sobre mim." (77)
"MARINELLI - Mas, cara Condessa, poderei antes ter a honra de conduzir-vos até vossa carruagem?
ORSINA - Não, nada disso.
MARINELLI - (Tomando-a pela mão de um modo nada suave.) Permiti que eu cumpra minha obrigação, oferecendo-vos meus préstimos.
ORSINA - Nada de precipitações! Dispenso vossos préstimos, meu senhor! É curioso como pessoas de vosso tipo transformam a cortesia em obrigação, a fim de poder relegar ao segundo plano o que é de fato sua obrigação!" (100)
"Por que a virtude ofendida haveria de se ocupar da vingança do vício?" (110)
LESSING, G. E. Emília Galotti. São Paulo: Hedra, 2010.
"Diante de uma tal esposa, ela crê que a amante pode continuar tendo seu lugar. Não é por uma esposa assim que ela teme ser sacrificada, mas...
PRÍNCIPE - Por uma nova amante." (35)
"Ela buscou refúgio junto aos livros, e eu temo que estes haverão de dar-lhe o golpe final." (35)
"Como vedes, estou à merce das ondas: de que adianta ficar perguntando como elas me arrebataram? Salvai-me se puderdes, e perguntai depois." (40)
"Mas o vício alheio pode nos tornar cúmplices contra a nossa vontade!" (52)
"... um veneno que não age imediatamente não é um veneno menos perigoso." (55)
"Não haveria meu silêncio de multiplicar, mais cedo ou mais tarde, seu desassossego? Penso que o melhor seria não-lhe ocultar nada." (55)
"Eu não deveria ter-vos inquietado com qualquer confissão pela qual não posso esperar ser gratificado. Além disso, fui suficientemente punido pela muda consternação com que me ouvistes, ou melhor, não ouvistes." (77)
"Não duvideis um segundo sequer do poder ilimitado que tendes sobre mim." (77)
"MARINELLI - Mas, cara Condessa, poderei antes ter a honra de conduzir-vos até vossa carruagem?
ORSINA - Não, nada disso.
MARINELLI - (Tomando-a pela mão de um modo nada suave.) Permiti que eu cumpra minha obrigação, oferecendo-vos meus préstimos.
ORSINA - Nada de precipitações! Dispenso vossos préstimos, meu senhor! É curioso como pessoas de vosso tipo transformam a cortesia em obrigação, a fim de poder relegar ao segundo plano o que é de fato sua obrigação!" (100)
"Por que a virtude ofendida haveria de se ocupar da vingança do vício?" (110)
LESSING, G. E. Emília Galotti. São Paulo: Hedra, 2010.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Ave, palavra - Guimarães Rosa
O mau humor de Wotan
"Longo o rumo dos horizontes,
(...) e um coração de amante a contrair-se, grande como a paisagem sármata e a desolação sagrada da ausência." (34)
Aquário
"Os peixes à baila, bocejam e se abanam, sem direito à imobilidade." (62)
"Podia ser um caranguejo ou um coração." (62)
"O caranguejo a encalacrar-se, tão intelectualmente construído.
O caranguejo carrascasco: comexe-se nele uma ideia, curva, doida e não cega." (64)
"Ainda há outra tartaruga - inventando a hélice." (65)
Evanira!
"Dois seres, trazidos todo o modo a um bosque, descobrem que, imemorialmente, se amam." (17)
"Vejo-te, meu íntimo é solúvel em ti. (...). AMO-TE (- "Meu amor...") DE REPENTE, E ME SEPARO DE UM MILHÃO DE COISAS. Uno-me. EU, enfim, era eu, indispersado. A AMADA. O mundo o mundo o mundo." (69)
"Sim - nostalgir-me, voltar para o coração. Sob refúgio. A SAUDADE PLORANTE, SUBTRAINDO SEGREDOS. Um anjo pode forçar demais as pessoas à transparência. Lembro-me de minha sombra. PREDESTINO!" (76)
Zoo
"Um coelho pulou no ar - como a gente espirra." (97)
"Um orangotango de rugas na testa; que, sem desrespeito, tem vezes lembra Schopenhauer." (99)
Circo do miudinho
"Ih, grilos. Os grilos, lícitos. Os grilos charivários. O grilo hortelão. O grilo agrícola. Os grilos - sempre por um triz! Os grilos tinem isqueiros. Os grilos, aí. O chirpio dos grilos. O trilo intranquilo. O milgrilejo, o miligril, a griloíce, o visgrilo (bisgrilo é a cantoria das cigarras). O impertinir. O esmeril do grilo. O outro e outro grilo. (Os grilos do mato são mais langorosos, têm habitat úmido. Esses, tocam viola.) O grilo, trogloditazinho trovador, rabeca às costas, sai de seu hipogeu, para vir comer as folhas da framboeseira. Aí, o grilo:
Isto é, ele se sai, muito vestido, de pé, de botas, é o grilo-de-botas, de mosqueteiro, fininhas plumas no chapéu, fininhos bigodes, e de espada à cinta, flanflim, só que inda traz, saindo-lhe dos cantos da boca, um pedacinho verde de folha - para de inofensivo se fingir, ou por descuido, ou vício, ou garbo de grilo. Fazia lua cheia, um luar desses, de todo o ar, o luar estava com tudo. A lua: Ó. O grilo olha para ela. Diz, mão à ilharga, cofiando antenas, o grilinho:
- A lua, hem... Saudade de quem?" (334)
Rosa, João Guimarães. Ave, palavra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
"Longo o rumo dos horizontes,
(...) e um coração de amante a contrair-se, grande como a paisagem sármata e a desolação sagrada da ausência." (34)
Aquário
"Os peixes à baila, bocejam e se abanam, sem direito à imobilidade." (62)
"Podia ser um caranguejo ou um coração." (62)
"O caranguejo a encalacrar-se, tão intelectualmente construído.
O caranguejo carrascasco: comexe-se nele uma ideia, curva, doida e não cega." (64)
"Ainda há outra tartaruga - inventando a hélice." (65)
Evanira!
"Dois seres, trazidos todo o modo a um bosque, descobrem que, imemorialmente, se amam." (17)
"Vejo-te, meu íntimo é solúvel em ti. (...). AMO-TE (- "Meu amor...") DE REPENTE, E ME SEPARO DE UM MILHÃO DE COISAS. Uno-me. EU, enfim, era eu, indispersado. A AMADA. O mundo o mundo o mundo." (69)
"Sim - nostalgir-me, voltar para o coração. Sob refúgio. A SAUDADE PLORANTE, SUBTRAINDO SEGREDOS. Um anjo pode forçar demais as pessoas à transparência. Lembro-me de minha sombra. PREDESTINO!" (76)
Zoo
"Um coelho pulou no ar - como a gente espirra." (97)
"Um orangotango de rugas na testa; que, sem desrespeito, tem vezes lembra Schopenhauer." (99)
Circo do miudinho
"Ih, grilos. Os grilos, lícitos. Os grilos charivários. O grilo hortelão. O grilo agrícola. Os grilos - sempre por um triz! Os grilos tinem isqueiros. Os grilos, aí. O chirpio dos grilos. O trilo intranquilo. O milgrilejo, o miligril, a griloíce, o visgrilo (bisgrilo é a cantoria das cigarras). O impertinir. O esmeril do grilo. O outro e outro grilo. (Os grilos do mato são mais langorosos, têm habitat úmido. Esses, tocam viola.) O grilo, trogloditazinho trovador, rabeca às costas, sai de seu hipogeu, para vir comer as folhas da framboeseira. Aí, o grilo:
Isto é, ele se sai, muito vestido, de pé, de botas, é o grilo-de-botas, de mosqueteiro, fininhas plumas no chapéu, fininhos bigodes, e de espada à cinta, flanflim, só que inda traz, saindo-lhe dos cantos da boca, um pedacinho verde de folha - para de inofensivo se fingir, ou por descuido, ou vício, ou garbo de grilo. Fazia lua cheia, um luar desses, de todo o ar, o luar estava com tudo. A lua: Ó. O grilo olha para ela. Diz, mão à ilharga, cofiando antenas, o grilinho:
- A lua, hem... Saudade de quem?" (334)
Rosa, João Guimarães. Ave, palavra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
segunda-feira, 12 de março de 2012
O lago, Yasunari Kawabata
"Assim que a viu desaparecer no vestíbulo da mansão de estilo ocidental, Gimpei tratou de fugir correndo. Sentiu que seus pés disformes corriam atrás dele, perseguindo-o." (27)
"Devido à nuca carnuda, Tatsu tinha dificuldade de envergar o pescoço para trás, e para olhar Miyako tinha de levantar a vista. Com isso, Miyako sentiu que a outra adivinhava seu coração." (49)
"Miyako não pretendia ter nenhum ciúme do velho Arita, parte por autoestima, parte por desesperança, mas, como era mulher, deixava escapar sem querer algumas palavras ciumentas, e o velho ficava com uma expressão de profundo desagrado, a ponto de deixar congelado o ciúme de Miyako." (75)
"As flores refletidas na água me dão medo." (98)
"- Entendi muito bem. É melhor não afundar no meu mundo. Tudo que foi trazido à tona por mim, procure confinar no fundo de algum local bem escondido. Se não fizer isso, vai acontecer alguma desgraça. Eu vou viver num mundo diferente do seu, e estarei a vida toda agradecido e sonhando com recordações suas." (132)
KAWABATA, Yasunari. O lago. São Paulo: Estação Liberdade, 2010.
"Devido à nuca carnuda, Tatsu tinha dificuldade de envergar o pescoço para trás, e para olhar Miyako tinha de levantar a vista. Com isso, Miyako sentiu que a outra adivinhava seu coração." (49)
"Miyako não pretendia ter nenhum ciúme do velho Arita, parte por autoestima, parte por desesperança, mas, como era mulher, deixava escapar sem querer algumas palavras ciumentas, e o velho ficava com uma expressão de profundo desagrado, a ponto de deixar congelado o ciúme de Miyako." (75)
"As flores refletidas na água me dão medo." (98)
"- Entendi muito bem. É melhor não afundar no meu mundo. Tudo que foi trazido à tona por mim, procure confinar no fundo de algum local bem escondido. Se não fizer isso, vai acontecer alguma desgraça. Eu vou viver num mundo diferente do seu, e estarei a vida toda agradecido e sonhando com recordações suas." (132)
KAWABATA, Yasunari. O lago. São Paulo: Estação Liberdade, 2010.
domingo, 4 de março de 2012
Luto e melancolia, Sigmund Freud
"O objeto [na melancolia] não é algo que realmente morreu, mas que se perdeu como objeto de amor" (51)
"sabe quem ele perdeu, mas não o que perdeu nele [no objeto]". (51)
"No luto é o mundo que se tornou pobre e vazio; na melancolia é o próprio ego." (53)
"Desse modo, tem-se à mão a chave do quadro clínico, na medida em que se reconhecem as autorrecriminações como recriminações contra um objeto de amor, a partir do qual se voltaram sobre o próprio ego."(59)
"Para eles, queixar-se é dar queixa no velho sentido do termo; eles não se envergonham nem se escondem, porque tudo de depreciativo que dizem de si mesmos no fundo dizem de outrem." (59)
"Houve uma escolha de objeto, uma ligação da libido a uma pessoa determinada; graças à influência de uma ofensa real ou decepção por parte da pessoa amada, essa relação de objeto ficou abalada. O resultado não foi o normal, uma retirada da libido desse objeto e seu deslocamento para um novo, mas foi outro, que parece requerer várias condições para sua consecução." (61)
"Por um lado, deve ter havido uma forte fixação no objeto de amor e, por outro, e em contradição com isso, uma pequena resistência do investimento objetal." (63)
"A perda do objeto de amor é uma oportunidade extraordinária para que entre em vigor e venha à luz a ambivalência das relações amorosas. (...)
Se o amor pelo objeto - um amor que não pode ser abandonado, ao mesmo tempo que o objeto o é - se refugiou na identificação narcísica, o ódio entra em ação nesse objeto substitutivo, insultando-o, humilhando-o, fazendo-o sofrer e ganhando nesse sofrimento uma satisfação sádica." (63-67)
"Nas duas situações opostas, o mais extremado enamoramento e o suicídio, embora por caminhos inteiramente diferentes, o ego é subjugado pelo objeto." (69)
"Nela [na melancolia] a reação com o objeto não é nada simples e se complica pelo conflito de ambivalência, (...) ou surge justamente das experiências acarretadas pela ameaça de perda do objeto." (81)
"Na melancolia se tramam portanto em torno do objeto inúmeras batalhas isoladas, nas quais o ódio e o amor combatem entre si: um para desligar a libido do objeto, outro para defender contra o ataque essa posição da libido." (81)
FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. Trad. Introd. e notas por Marilene Carone. Cosac Naify: São Paulo, 2012
"sabe quem ele perdeu, mas não o que perdeu nele [no objeto]". (51)
"No luto é o mundo que se tornou pobre e vazio; na melancolia é o próprio ego." (53)
"Desse modo, tem-se à mão a chave do quadro clínico, na medida em que se reconhecem as autorrecriminações como recriminações contra um objeto de amor, a partir do qual se voltaram sobre o próprio ego."(59)
"Para eles, queixar-se é dar queixa no velho sentido do termo; eles não se envergonham nem se escondem, porque tudo de depreciativo que dizem de si mesmos no fundo dizem de outrem." (59)
"Houve uma escolha de objeto, uma ligação da libido a uma pessoa determinada; graças à influência de uma ofensa real ou decepção por parte da pessoa amada, essa relação de objeto ficou abalada. O resultado não foi o normal, uma retirada da libido desse objeto e seu deslocamento para um novo, mas foi outro, que parece requerer várias condições para sua consecução." (61)
"Por um lado, deve ter havido uma forte fixação no objeto de amor e, por outro, e em contradição com isso, uma pequena resistência do investimento objetal." (63)
"A perda do objeto de amor é uma oportunidade extraordinária para que entre em vigor e venha à luz a ambivalência das relações amorosas. (...)
Se o amor pelo objeto - um amor que não pode ser abandonado, ao mesmo tempo que o objeto o é - se refugiou na identificação narcísica, o ódio entra em ação nesse objeto substitutivo, insultando-o, humilhando-o, fazendo-o sofrer e ganhando nesse sofrimento uma satisfação sádica." (63-67)
"Nas duas situações opostas, o mais extremado enamoramento e o suicídio, embora por caminhos inteiramente diferentes, o ego é subjugado pelo objeto." (69)
"Nela [na melancolia] a reação com o objeto não é nada simples e se complica pelo conflito de ambivalência, (...) ou surge justamente das experiências acarretadas pela ameaça de perda do objeto." (81)
"Na melancolia se tramam portanto em torno do objeto inúmeras batalhas isoladas, nas quais o ódio e o amor combatem entre si: um para desligar a libido do objeto, outro para defender contra o ataque essa posição da libido." (81)
FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. Trad. Introd. e notas por Marilene Carone. Cosac Naify: São Paulo, 2012
domingo, 8 de janeiro de 2012
Uma ode de Anacreonte, Machado de Assis
"Eu devo ir só; tu fica, ama-me um pouco e esquece." (148)
"Só dois remédios tens; esquecer, esperar." (160)
"Um só dia de amor compensa estéreis dias." (160)
"A clepsidra do amor não conta as horas, conta
As ilusões" (161)
ASSIS, Machado de. Toda poesia de Machado de Assis. Organização de Cláudio Murilo Leal. Record: Rio de Janeiro, 2008.
"Só dois remédios tens; esquecer, esperar." (160)
"Um só dia de amor compensa estéreis dias." (160)
"A clepsidra do amor não conta as horas, conta
As ilusões" (161)
ASSIS, Machado de. Toda poesia de Machado de Assis. Organização de Cláudio Murilo Leal. Record: Rio de Janeiro, 2008.
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