"No longo percurso que começa no olho, passa pelo braço e chega até o pincel, quanto não se perde! Mas, como disse, tenho noção de quanto foi perdido aqui, e como foi perdido, e por que teve que ser perdido: e disso tenho igualmente orgulho, mais orgulho do que por tudo o que não deixei se perder. Pois é no que foi perdido que reconheço, mais do que naquilo que não se perdeu, que sou realmente um grande pintor, embora minha mão nem sempre o seja." (31)
"Diante de uma tal esposa, ela crê que a amante pode continuar tendo seu lugar. Não é por uma esposa assim que ela teme ser sacrificada, mas...
PRÍNCIPE - Por uma nova amante." (35)
"Ela buscou refúgio junto aos livros, e eu temo que estes haverão de dar-lhe o golpe final." (35)
"Como vedes, estou à merce das ondas: de que adianta ficar perguntando como elas me arrebataram? Salvai-me se puderdes, e perguntai depois." (40)
"Mas o vício alheio pode nos tornar cúmplices contra a nossa vontade!" (52)
"... um veneno que não age imediatamente não é um veneno menos perigoso." (55)
"Não haveria meu silêncio de multiplicar, mais cedo ou mais tarde, seu desassossego? Penso que o melhor seria não-lhe ocultar nada." (55)
"Eu não deveria ter-vos inquietado com qualquer confissão pela qual não posso esperar ser gratificado. Além disso, fui suficientemente punido pela muda consternação com que me ouvistes, ou melhor, não ouvistes." (77)
"Não duvideis um segundo sequer do poder ilimitado que tendes sobre mim." (77)
"MARINELLI - Mas, cara Condessa, poderei antes ter a honra de conduzir-vos até vossa carruagem?
ORSINA - Não, nada disso.
MARINELLI - (Tomando-a pela mão de um modo nada suave.) Permiti que eu cumpra minha obrigação, oferecendo-vos meus préstimos.
ORSINA - Nada de precipitações! Dispenso vossos préstimos, meu senhor! É curioso como pessoas de vosso tipo transformam a cortesia em obrigação, a fim de poder relegar ao segundo plano o que é de fato sua obrigação!" (100)
"Por que a virtude ofendida haveria de se ocupar da vingança do vício?" (110)
LESSING, G. E. Emília Galotti. São Paulo: Hedra, 2010.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Ave, palavra - Guimarães Rosa
O mau humor de Wotan
"Longo o rumo dos horizontes,
(...) e um coração de amante a contrair-se, grande como a paisagem sármata e a desolação sagrada da ausência." (34)
Aquário
"Os peixes à baila, bocejam e se abanam, sem direito à imobilidade." (62)
"Podia ser um caranguejo ou um coração." (62)
"O caranguejo a encalacrar-se, tão intelectualmente construído.
O caranguejo carrascasco: comexe-se nele uma ideia, curva, doida e não cega." (64)
"Ainda há outra tartaruga - inventando a hélice." (65)
Evanira!
"Dois seres, trazidos todo o modo a um bosque, descobrem que, imemorialmente, se amam." (17)
"Vejo-te, meu íntimo é solúvel em ti. (...). AMO-TE (- "Meu amor...") DE REPENTE, E ME SEPARO DE UM MILHÃO DE COISAS. Uno-me. EU, enfim, era eu, indispersado. A AMADA. O mundo o mundo o mundo." (69)
"Sim - nostalgir-me, voltar para o coração. Sob refúgio. A SAUDADE PLORANTE, SUBTRAINDO SEGREDOS. Um anjo pode forçar demais as pessoas à transparência. Lembro-me de minha sombra. PREDESTINO!" (76)
Zoo
"Um coelho pulou no ar - como a gente espirra." (97)
"Um orangotango de rugas na testa; que, sem desrespeito, tem vezes lembra Schopenhauer." (99)
Circo do miudinho
"Ih, grilos. Os grilos, lícitos. Os grilos charivários. O grilo hortelão. O grilo agrícola. Os grilos - sempre por um triz! Os grilos tinem isqueiros. Os grilos, aí. O chirpio dos grilos. O trilo intranquilo. O milgrilejo, o miligril, a griloíce, o visgrilo (bisgrilo é a cantoria das cigarras). O impertinir. O esmeril do grilo. O outro e outro grilo. (Os grilos do mato são mais langorosos, têm habitat úmido. Esses, tocam viola.) O grilo, trogloditazinho trovador, rabeca às costas, sai de seu hipogeu, para vir comer as folhas da framboeseira. Aí, o grilo:
Isto é, ele se sai, muito vestido, de pé, de botas, é o grilo-de-botas, de mosqueteiro, fininhas plumas no chapéu, fininhos bigodes, e de espada à cinta, flanflim, só que inda traz, saindo-lhe dos cantos da boca, um pedacinho verde de folha - para de inofensivo se fingir, ou por descuido, ou vício, ou garbo de grilo. Fazia lua cheia, um luar desses, de todo o ar, o luar estava com tudo. A lua: Ó. O grilo olha para ela. Diz, mão à ilharga, cofiando antenas, o grilinho:
- A lua, hem... Saudade de quem?" (334)
Rosa, João Guimarães. Ave, palavra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
"Longo o rumo dos horizontes,
(...) e um coração de amante a contrair-se, grande como a paisagem sármata e a desolação sagrada da ausência." (34)
Aquário
"Os peixes à baila, bocejam e se abanam, sem direito à imobilidade." (62)
"Podia ser um caranguejo ou um coração." (62)
"O caranguejo a encalacrar-se, tão intelectualmente construído.
O caranguejo carrascasco: comexe-se nele uma ideia, curva, doida e não cega." (64)
"Ainda há outra tartaruga - inventando a hélice." (65)
Evanira!
"Dois seres, trazidos todo o modo a um bosque, descobrem que, imemorialmente, se amam." (17)
"Vejo-te, meu íntimo é solúvel em ti. (...). AMO-TE (- "Meu amor...") DE REPENTE, E ME SEPARO DE UM MILHÃO DE COISAS. Uno-me. EU, enfim, era eu, indispersado. A AMADA. O mundo o mundo o mundo." (69)
"Sim - nostalgir-me, voltar para o coração. Sob refúgio. A SAUDADE PLORANTE, SUBTRAINDO SEGREDOS. Um anjo pode forçar demais as pessoas à transparência. Lembro-me de minha sombra. PREDESTINO!" (76)
Zoo
"Um coelho pulou no ar - como a gente espirra." (97)
"Um orangotango de rugas na testa; que, sem desrespeito, tem vezes lembra Schopenhauer." (99)
Circo do miudinho
"Ih, grilos. Os grilos, lícitos. Os grilos charivários. O grilo hortelão. O grilo agrícola. Os grilos - sempre por um triz! Os grilos tinem isqueiros. Os grilos, aí. O chirpio dos grilos. O trilo intranquilo. O milgrilejo, o miligril, a griloíce, o visgrilo (bisgrilo é a cantoria das cigarras). O impertinir. O esmeril do grilo. O outro e outro grilo. (Os grilos do mato são mais langorosos, têm habitat úmido. Esses, tocam viola.) O grilo, trogloditazinho trovador, rabeca às costas, sai de seu hipogeu, para vir comer as folhas da framboeseira. Aí, o grilo:
Isto é, ele se sai, muito vestido, de pé, de botas, é o grilo-de-botas, de mosqueteiro, fininhas plumas no chapéu, fininhos bigodes, e de espada à cinta, flanflim, só que inda traz, saindo-lhe dos cantos da boca, um pedacinho verde de folha - para de inofensivo se fingir, ou por descuido, ou vício, ou garbo de grilo. Fazia lua cheia, um luar desses, de todo o ar, o luar estava com tudo. A lua: Ó. O grilo olha para ela. Diz, mão à ilharga, cofiando antenas, o grilinho:
- A lua, hem... Saudade de quem?" (334)
Rosa, João Guimarães. Ave, palavra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
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