"Como é presunçosa a mocidade de hoje! A gente pergunta a qualquer moço: ' Que vinho prefere, tinto ou branco?' ' Costumo tomar vinho tinto!', responde em tom grave e com tanta importância, como se todo o universo o contemplasse nesse momento..." (66)
"- Chamo-me Arcádio Nikoláievitch Kirsánov - disse Arcádio. - Nada faço neste mundo." (79)
"Não percamos tempo. Só perdem tempo idiotas demasiado inteligentes." (94)
"Sou infeliz porque... porque não tenho vontade de viver. Olha-me como se pensasse: fala uma aristocrata vestida de rendas e sentada numa poltrona de veludo. Não nego: gosto daquilo que se chama de conforto e ao mesmo tempo tenho pouca vontade de viver. Resolva essa contradição como bem o entender." (116)
"O aparecimento da futilidade costuma ser às vezes útil na vida: afrouxa as cordas demasiado tensas e arrefece os sentimentos muito fortes e duradouros ou passageiros, lembrando-lhes o estreito parentesco existente entre ambos." (127)
Turgueniev, Ivan. Pais e filhos. São Paulo: Abril cultural, 1981.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Grande Sertão: Veredas (p.p.1-150)
"O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar." (32)
"Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar." (32)
"O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal..." (35)
"O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior." (39)
"Moço: toda saudade é uma espécie de velhice." (56)
"Eu sei: nôjo é invenção, do Que-Não-Há, para estorvar que se tenha dó." (75)
"Como é que se pode gostar do verdadeiro no falso? Amizade com ilusão de desilusão. Vida muito esponjosa. Eu passava fácil, mas tinha sonhos, que me afadigavam. Dos de que a gente acorda devagar. O amor? Pássaro que põe ovos de ferro." (77)
"'Você aguenta o existir?' - perguntei. - 'Guardo isso, para às vezes ter saudade'" (81)
"A gente, se queria, mirava, ainda acertava neles. Coisas que vi, vi, vi - ôi... Eu não atirei. Não tive braçagem. Talvez tive pena." (84)
"O barulhim do rio era de bicho em bicheira." (94)
"No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso..." (101)
"Ah, porém, estaquei na ponta dum pensamento, e agudo temi, temi. Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!" (103)
"Gostava de Diadorim, dum jeito condenado; nem pensava mais que gostava, mas aí sabia que já gostava em sempre. Ôi, suindara! - linda cor..." (110)
"Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar o corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!" (116)
"Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas - e só essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção." (116)
"Achei mesmo que tudo tinha perdido a graça, o de se ver." (136)
Rosa, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
"Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar." (32)
"O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal..." (35)
"O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior." (39)
"Moço: toda saudade é uma espécie de velhice." (56)
"Eu sei: nôjo é invenção, do Que-Não-Há, para estorvar que se tenha dó." (75)
"Como é que se pode gostar do verdadeiro no falso? Amizade com ilusão de desilusão. Vida muito esponjosa. Eu passava fácil, mas tinha sonhos, que me afadigavam. Dos de que a gente acorda devagar. O amor? Pássaro que põe ovos de ferro." (77)
"'Você aguenta o existir?' - perguntei. - 'Guardo isso, para às vezes ter saudade'" (81)
"A gente, se queria, mirava, ainda acertava neles. Coisas que vi, vi, vi - ôi... Eu não atirei. Não tive braçagem. Talvez tive pena." (84)
"O barulhim do rio era de bicho em bicheira." (94)
"No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso..." (101)
"Ah, porém, estaquei na ponta dum pensamento, e agudo temi, temi. Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!" (103)
"Gostava de Diadorim, dum jeito condenado; nem pensava mais que gostava, mas aí sabia que já gostava em sempre. Ôi, suindara! - linda cor..." (110)
"Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar o corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!" (116)
"Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas - e só essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção." (116)
"Achei mesmo que tudo tinha perdido a graça, o de se ver." (136)
Rosa, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
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