segunda-feira, 14 de março de 2011

O inominável, Samuel Beckett

"Não, não, sei que estamos todos aqui para sempre, desde sempre." (7)

"As lágrimas jorram quase que sem parar, não se sabe por quê, se é de raiva, se é de dor, é assim, talvez seja a voz que o faz chorar, de raiva, ou de uma outra paixão qualquer, ou de te ver, de tempos em tempos, alguma coisa, talvez seja isso, talvez ele chore para não ver, embora pareça difícil atribuir-lhe uma iniciativa dessa força." (79)

"Se eu pudesse fazer um esforço, um esforço de atenção, para tentar saber o que se passa, o que me acontece, o que então, eu não sei, esqueci a apódose, mas não posso, nem ouço mais, durmo, eles chamam isso de dormir, ei-los de volta, vai ser necessário recomeçar a matá-los, ouço esse barulho horrível, retornar é demorado, não sei de onde, eu havia quase chegado lá, quase dormi, chamo isso de dormir, não há senão eu, não houve nunca senão eu, quero dizer aqui, em outros lugares não digo, em outros lugares nunca estive, aqui é meu único outro lugar, sou eu que faço essa coisa e sou eu que a sofro, não é possível ser de outro modo, não é possível assim, não é minha culpa, tudo o que posso dizer é que não é minha culpa, não é culpa de ninguém, pois não há ninguém não pode ser culpa de alguém, pois não há senão eu não pode ser a minha, (...)" (125)



BECKETT, Samuel. O inominável. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

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