"eu sou homem; eu não quero transformar-me numa estátua de pedra." (147)
"não tenho nem mesmo o mérito do sacrifício" (153)
"AXËL
Ah! o sábio pode bem distrair-se da Sapiência!
MESTRE JANUS
Só o insensato pode sonhar em fugir do que ama." (155)
"De agora em diante, eu o sinto, saber-te no mundo me impedirá de viver!"(181)
"Deixa-me contemplar, somente, tua palidez mortal. Eu quero me sentar aos teus pés e sofrer, por minha vez, do mal dos humanos. Amar, é isso, sem dúvida!" (183)
"[Todos os sonhos a realizar!]
AXËL
(Grave e impenetrável)
Para que realizá-los?... eles são tão belos!" (197)
"AXËL (
a meia voz, pensativo, e como para si mesmo)
Sem dúvida, um deus me tem ciúmes neste instante, de mim que posso morrer. "(198)
"AXËL
Viver? Não. Nossa existência está completa, e sua taça transborda! Que ampulheta contará as horas desta noite! O futuro?... Sara, crê nestas palavras: nós que acabamos de esgotá-lo. Todas as realidades, amanhã que serão elas em comparação às miragens que acabamos de viver? Para que transformar em dinheiro, a exemplo dos humanos pusilânimes, nossos antigos irmãos, esta dracma de ouro com uma efígie de sonho, óbolo do Styx - que cintila entre nossas mãos triunfais!
A qualidade de nosso espírito não nos dá mais direito à terra. O que pedir, senão os pálidos reflexos de tais instantes, a esta miserável estrela, onde se atarda a melancolia? A Terra, tu dizes O que ela - esta gota de lama congelada, cuja Hora não sabe senão mentir no meio do céu - nunca realizou: É ela, tu não vês? que se transformou na Ilusão! Reconhece-o, Sara: nós destruímos, nos nossos estranhos corações, o amor pela vida - e é justamente na REALIDADE que nos transformamos em nossas almas! Aceitar, a partir de agora, viver, não seria mais que um sacrilégio contra nós mesmos. Viver? Os criados farão isso por nós.
Saciados para uma eternidade, levantemo-nos da mesa e, em plena justiça, deixemos aos infelizes, cuja natureza é a de só poder medir através da Sensação o valor das realidades, o cuidado de juntar as migalhas do festim." (199)
"AXËL
Minha testa não queima; eu não falo de forma vã - e a única febre de que é preciso, na verdade, curar-nos, é a de existir. Queria consciência, ouve! e tu mesma decidirás, em seguida. Por que procurar ressuscitar um a um os inebriamentos cuja soma ideal acabamos de experimentar, e querer subjugar nossos tão augustos desejos a concessões de todos os instantes onde sua própria essência, diminuída, anular-se-á amanhã sem dúvida? Queres então aceitar, com nossos
iguais, todas as piedades que o
Amanhã nos reserva, as saciedades, as doenças, as decepções constantes, a velhice, e ainda doar o dia a uns seres dedicados ao tédio de continuar?... Nós, para quem um Oceano não aplacaria a sede, vamos consentir em satisfazermo-nos com algumas gotas de água, porque tais insensatos pretenderam, com sorrisos insignificantes, que depois de tudo vem a sabedoria? Por que condescender em responder
amém a todas estas litanias de escravos? Fadigas muito estéreis, Sara! e pouco dignas de sucedes a esta miraculosa noite nupcial onde, virgens ainda, nós nos possuímos entretanto para sempre!" (199)
"AXËL
Vês o mundo exterior através de tua alma: ele te ofusca! Mas ele não pode nos dar uma só hora comparável, e, intensidade de existência, a um segundo destas que nós acabamos de viver. A completude real, absoluta, perfeita, é o momento interior que nós experimentamos um do outro, no esplendor fúnebre deste túmulo. Este momento ideal, nós o desgustamos: ei-lo portanto irrevogável, com qualquer nome que o nomeies! Tentar revivê-lo, modelando, cada dia, a sua imagem, um grão de poeira, sempre decepcionante, de aparências exteriores, seria apenas arriscar desnaturá-lo, diminuir sua impressão divina, anulá-lo no mais profundo de nós mesmos. Estejamos atentos para não sabermos morrer enquanto ainda haja tempo para isso." (200)
"E eu concluo, por seus exemplos, que nós não temos mais nada a fazer aqui." (201)
"SARA
Talvez fosse mais belo sonhar o bem de todos!
AXËL
O universo se entre-devora; estre é o preço do bem de... todos." (202)
"AXËL
(...)
Possa a raça humana, desenganada de suas vãs quimeras, de seus vãos desesperos, e de todas as mentiras que cegam os olhos feitos para se apagar - não consentindo mais no jogo deste enigma morno, sim, possa ela terminar, fugindo indiferente, a nosso exemplo, sem te endereçar nem mesmo um adeus." (205)
VILLIERS DE L'ISLE-ADAM, Auguste. Axël. Curitiba: Ed. da UFPR, 2005.