sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Clarice Lispector: Esboço para um possível retrato, Olga Borelli

Nota: em itálico são citações que a autora Olga Borelli usa de falas ou textos de Clarice.


"Às vezes o que nos salva a alma são os vícios." (20)


"Acendia um incenso, uma vela, colocava um disco na vitrola: em geral Bach, Beethoven, Stravinski ou Debussy." (32)


"Às vezes interrompia tudo e ficava horas mergulhada em meditação.


(...)


Ficava horas embevecida no que iria fazer no dia seguinte." (33)



"Tua vida na terra deu errado. Simplesmente não funcionou. Que fazer então?" (39)


"Nada é mais solitário que fazer um chá para si mesma." (40)


"Havia, porém, períodos de grande dinamismo: punha-se a fazer ginástica, exercitava-se numa bicicleta ergométrica, passava cremes no rosto, perfumava-se muito. (...)


Ligava para agências de turismo, marcava entrevista, idealizava roteiros e devaneava dias e dias sobre os lugares que visitaria (...)


Tudo era tão real que, de repente, nada restava para ser visto ou vivido; sobrevinha-lhe uma inelutável preguiça ante a perspectiva de pôr seus sonhos em prática. Exausta, cancelava a viagem." (42)



"Se eu fizer o que eu posso fazer poderei talvez alcançar uma certa paz." (86)



"Às vezes a música se prolongava, e, embora já estivéssemos no local de destino, ela só saltava depois de ouvi-la até o fim." (95)



"Temos ido como sempre ao cinema e saio meio tonta do cinema, de tal forma estou sempre disposta a perder a consciência das coisas e a me entregar à inconsciência. Seria muito bom um emprego de ir todos os dias ao cinema e depois não dizer se gostou ou não gostou. Quanto ao mais, nada propriamente." (113)



"Hoje é domingo, e não sei por que, todo domingo é pé de cachimbo." (133)



"Na parede de meu quarto pendurei várias frases." (116)



"Acho que a culpa é da excessiva solidão, e dessa longa tarde de domingo que dura anos." (130)



Borelli, Olga. Clarice Lispector: Esboço para um possível retrato. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Assim falou Zaratustra, F. Nietzsche - pt.1

Prólogo

"Amo aquele que sente vergonha se o dado cai a seu favor e que, então, pergunta: 'Sou, acaso, um trapaceiro?' - porque quer perecer." (39)

"assim, peço à minha altivez que acompanhe sempre a minha prudência.
E se, algum dia, a minha prudência me abandonar - ah, como gosta de bater asas! -, possa a minha altivez, então, voar ainda em companhia da minha loucura!" (49)


Parte I

"Ter muitas virtudes confere distinção, mas é um pesado destino; e não poucos foram para o deserto, cansados que estavam de ser batalha e campo de batalha de virtudes." (63)

"Mas uma coisa é o pensamento, outra, a ação; e outra, ainda, a imagem da ação. A roda da causalidade não gira entre elas." (64)

"Quero ter duendes ao meu redor, porque sou corajoso." (66)

"Aí estão os seres terríveis [os pregadores da morte], que trazem a fera dentro de si e para os quais não há escolha senão entre os prazeres e a maceração. E também seus prazeres ainda são maceração.
(...)
Envoltos em espessa melancolia e sequisoos dos pequenos acasos que ocasionam a morte: é assim que a esperam, cerrando os dentes. (...)
agarram-se à tênue palha de suas vidas, motejando de que ainda se agarram a uma palha." (71)

"Solitário, percorres o caminho de quem ama: amas-te a ti mesmo e, por isso, te desprezas, como sabem desprezar somente os que amam." (91)

"Que o homem tema a mulher, quando ela ama: é capaz de todo o sacrifício e qualquer outra coisa não tem, para ela, valor.
(...)
A felicidade do homem chama-se: eu quero. A felicidade da mulher chama-se: ele quer." (93)

"Algum nunca chega a ficar doce, apodrece já no verão. É a covardia que o mantém pendurado em seu galho." (99)



NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2008.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Um, nenhum e cem mil, Luigi Pirandello

"É melhor que vejam se lhes parece possível estar tão seguros de que amanhã vocês serão aquilo que decidiram ser hoje." (56)



Pirandello, Luigi. Um, nenhum e cem mil. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Axël, Villiers de L'Isle-Adam

"eu sou homem; eu não quero transformar-me numa estátua de pedra." (147)


"não tenho nem mesmo o mérito do sacrifício" (153)


"AXËL
Ah! o sábio pode bem distrair-se da Sapiência!

MESTRE JANUS
Só o insensato pode sonhar em fugir do que ama." (155)


"De agora em diante, eu o sinto, saber-te no mundo me impedirá de viver!"(181)


"Deixa-me contemplar, somente, tua palidez mortal. Eu quero me sentar aos teus pés e sofrer, por minha vez, do mal dos humanos. Amar, é isso, sem dúvida!" (183)


"[Todos os sonhos a realizar!]
AXËL (Grave e impenetrável)
Para que realizá-los?... eles são tão belos!" (197)


"AXËL (a meia voz, pensativo, e como para si mesmo)
Sem dúvida, um deus me tem ciúmes neste instante, de mim que posso morrer. "(198)


"AXËL
Viver? Não. Nossa existência está completa, e sua taça transborda! Que ampulheta contará as horas desta noite! O futuro?... Sara, crê nestas palavras: nós que acabamos de esgotá-lo. Todas as realidades, amanhã que serão elas em comparação às miragens que acabamos de viver? Para que transformar em dinheiro, a exemplo dos humanos pusilânimes, nossos antigos irmãos, esta dracma de ouro com uma efígie de sonho, óbolo do Styx - que cintila entre nossas mãos triunfais!

A qualidade de nosso espírito não nos dá mais direito à terra. O que pedir, senão os pálidos reflexos de tais instantes, a esta miserável estrela, onde se atarda a melancolia? A Terra, tu dizes O que ela - esta gota de lama congelada, cuja Hora não sabe senão mentir no meio do céu - nunca realizou: É ela, tu não vês? que se transformou na Ilusão! Reconhece-o, Sara: nós destruímos, nos nossos estranhos corações, o amor pela vida - e é justamente na REALIDADE que nos transformamos em nossas almas! Aceitar, a partir de agora, viver, não seria mais que um sacrilégio contra nós mesmos. Viver? Os criados farão isso por nós.
Saciados para uma eternidade, levantemo-nos da mesa e, em plena justiça, deixemos aos infelizes, cuja natureza é a de só poder medir através da Sensação o valor das realidades, o cuidado de juntar as migalhas do festim." (199)


"AXËL
Minha testa não queima; eu não falo de forma vã - e a única febre de que é preciso, na verdade, curar-nos, é a de existir. Queria consciência, ouve! e tu mesma decidirás, em seguida. Por que procurar ressuscitar um a um os inebriamentos cuja soma ideal acabamos de experimentar, e querer subjugar nossos tão augustos desejos a concessões de todos os instantes onde sua própria essência, diminuída, anular-se-á amanhã sem dúvida? Queres então aceitar, com nossos iguais, todas as piedades que o Amanhã nos reserva, as saciedades, as doenças, as decepções constantes, a velhice, e ainda doar o dia a uns seres dedicados ao tédio de continuar?... Nós, para quem um Oceano não aplacaria a sede, vamos consentir em satisfazermo-nos com algumas gotas de água, porque tais insensatos pretenderam, com sorrisos insignificantes, que depois de tudo vem a sabedoria? Por que condescender em responder amém a todas estas litanias de escravos? Fadigas muito estéreis, Sara! e pouco dignas de sucedes a esta miraculosa noite nupcial onde, virgens ainda, nós nos possuímos entretanto para sempre!" (199)


"AXËL
Vês o mundo exterior através de tua alma: ele te ofusca! Mas ele não pode nos dar uma só hora comparável, e, intensidade de existência, a um segundo destas que nós acabamos de viver. A completude real, absoluta, perfeita, é o momento interior que nós experimentamos um do outro, no esplendor fúnebre deste túmulo. Este momento ideal, nós o desgustamos: ei-lo portanto irrevogável, com qualquer nome que o nomeies! Tentar revivê-lo, modelando, cada dia, a sua imagem, um grão de poeira, sempre decepcionante, de aparências exteriores, seria apenas arriscar desnaturá-lo, diminuir sua impressão divina, anulá-lo no mais profundo de nós mesmos. Estejamos atentos para não sabermos morrer enquanto ainda haja tempo para isso." (200)


"E eu concluo, por seus exemplos, que nós não temos mais nada a fazer aqui." (201)


"SARA
Talvez fosse mais belo sonhar o bem de todos!

AXËL
O universo se entre-devora; estre é o preço do bem de... todos." (202)


"AXËL
(...)
Possa a raça humana, desenganada de suas vãs quimeras, de seus vãos desesperos, e de todas as mentiras que cegam os olhos feitos para se apagar - não consentindo mais no jogo deste enigma morno, sim, possa ela terminar, fugindo indiferente, a nosso exemplo, sem te endereçar nem mesmo um adeus." (205)



VILLIERS DE L'ISLE-ADAM, Auguste. Axël. Curitiba: Ed. da UFPR, 2005.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

As armas secretas, Julio Cortázar

"Não sobrava nada além de uma tola liberdade condicional, a piada de se viver como uma palavra entre parênteses, divorciada da frase principal e da qual, no entanto, é quase sempre sustentação e explicação" (10)


"Sentia a casa como uma mão que estivesse se fechando sobre ele." (32)



CORTÁZAR, Julio. As armas secretas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Mal visto mal dito, Samuel Beckett

"Ali está ela portanto como que transformada em pedra diante da noite." (37)

"como se ela tivesse a infelicidade de estar viva." (39)

"De onde eles a deixam desaparecer. Em vez de desaparecercom ela. Assim desatina."(47)

"Que calma então. E que tormenta. Sob a falsa calma do luto." (50)

"De tanto - de tanto fiasco a loucura se imiscui." (51)

"A ausência os mudou. Não o bastate. Só resta partir de novo. De onde cedo demais regressados. Mudados mas não o bastante. A todo o mal visto mal dito. Depois tornar a voltar. Fracos para acabar com tudo enfim." (63)

"E se por infelicidade ainda partir de novo para sempre ainda. Assim por diante. Até não mais vestigios." (68)



BECKETT, Samuel. O despovoador; Mal visto mal dito; tradução Eloisa Araújo Ribeiro; edição preparada por Vadim Nikitin. - São Paulo: Martins Fontes, 2008.

segunda-feira, 14 de março de 2011

O inominável, Samuel Beckett

"Não, não, sei que estamos todos aqui para sempre, desde sempre." (7)

"As lágrimas jorram quase que sem parar, não se sabe por quê, se é de raiva, se é de dor, é assim, talvez seja a voz que o faz chorar, de raiva, ou de uma outra paixão qualquer, ou de te ver, de tempos em tempos, alguma coisa, talvez seja isso, talvez ele chore para não ver, embora pareça difícil atribuir-lhe uma iniciativa dessa força." (79)

"Se eu pudesse fazer um esforço, um esforço de atenção, para tentar saber o que se passa, o que me acontece, o que então, eu não sei, esqueci a apódose, mas não posso, nem ouço mais, durmo, eles chamam isso de dormir, ei-los de volta, vai ser necessário recomeçar a matá-los, ouço esse barulho horrível, retornar é demorado, não sei de onde, eu havia quase chegado lá, quase dormi, chamo isso de dormir, não há senão eu, não houve nunca senão eu, quero dizer aqui, em outros lugares não digo, em outros lugares nunca estive, aqui é meu único outro lugar, sou eu que faço essa coisa e sou eu que a sofro, não é possível ser de outro modo, não é possível assim, não é minha culpa, tudo o que posso dizer é que não é minha culpa, não é culpa de ninguém, pois não há ninguém não pode ser culpa de alguém, pois não há senão eu não pode ser a minha, (...)" (125)



BECKETT, Samuel. O inominável. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Malone Morre, Samuel Beckett

"Vivi numa espécie de estado de coma" (11)


"Não vale a pena culpar as palavras. Elas não são mais vazias do que aquilo que carregam" (26)


"Então, ficar sozinho por um longo tempo, infeliz, não sabendo como deveria ser minha oração, nem para quem." (64)


"A vida, quem sabe, as tentativas de amar, de comer, de escapar dos que querem vingança." (64)


"E talvez ele chegou naquele estágio do seu instante quando viver é vagar sozinho no fundo de um instante sem limites, onde a luz não varia e onde os destroços se parecem." (73)


"Logo quer dizer daqui a dois ou três dias, na linguagem dos dias quando me ensinavam o nome dos dias da semana e eu me espantava que fossem tão poucos e agitava minhas mãozinhas gritando, mais!, mais!, e como ler as horas no relógio, e que são dois ou três dias, mais ou menos, a longo prazo, uma bobagem qualquer" (74)


"E se um dia eu me calar, é porque não há mais nada a dizer, embora nada tenha sido dito. Mas vamos deixar de lado esses assuntos mórbidos e vamos voltar ao tema da minha morte, daqui a uns dois ou três dias, se não me falha a memória." (77)


"E no meio de seu suplício, ninguém fica tanto tempo numa situação dessas sem se sentir incomodado, ele começou a desejar que a chuva nunca mais passasse, nem seus sofrimentos nem suas penas, pois a causa de seus males era, certamente, a chuva, a posição deitada não tendo nada de particularmente desagradável, como se existisse uma relação entre o que sofre e o que faz sofrer." (85)


"Cansado com o meu cansaço, branca lua última, único lamento, nem isso. Estar morto, diante dela, sobre ela, com ela, e girar, morto sobre morta, em volta dos pobres homens, e nunca mais ter que morrer, entre vivos e moribundos." (113)


"Minha história terminada, ainda vou estar vivendo. Falta que promete. É o fim de mim. Não vou mais dizer eu." (137)



BECKETT, Samuel. Malone morre. Editora Brasiliense: São Paulo, 1986.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Papéis inesperados, Júlio Cortázar

A Ordem do dia (p.425)

"(...) Para que vem a noite se não é procurando pássaros. Quando está junto a mim, abro os braços, bebo-a profundamente e me deixo ir, já esquecido de resistências, como um falcão fulminado ou uma construção gótica."



CORTÁZAR, Julio. Papéis inesperados. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010

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