O Mito de Sísifo parte I: Um Raciocínio Aburdo
O Absurdo e o Suicídio
"Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia." (17)
"Vejo outros que, paradoxalmente, deixam-se matar pelas idéias ou ilusões que lhes dão uma razão de viver (o que se denomina razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer)." (18)
"Um gesto desses [o suicídio] se prepara no silêncio do coração, da mesma maneira que uma grande obra. O próprio homem o ignora." (18)
"Mas se é difícil fixar o instante preciso, o percurso sutil em que o espírito apostou na morte, é mais simples extrair do gesto em si as consqüências que ele supõe. Matar-se, em certo sentido, e como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos. (...)
Trata-se apenas de confessar que isso "não vale a pena"." (19)
"Continuamos fazendo os gestos que a existência impõe por muitos motivos, o primeiro dos quais é o costume. Morrer por vontade própria supõe que se reconheceu, mesmo instintivamente, o caráter ridículo desse costume, a ausência de qualquer motivo profundo para viver, o caráter insensato da agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento." (19)
"A priori, e invertendo os termos do problema, parece que ou você se mata ou não se mata, só há duas soluções filosóficas, a do sim e a do não. Seria fácil demais. Mas temos que pensar naqueles que não param de interrogar, sem chegar a nenhuma conclusão. E não estou ironizando: trata-se da maioria." (20/21)
"... será então preciso acreditar que não há relação alguma entre a opinião que se tem sobre a vida e o gesto que se faz para abandoná-la?" (21)
"O juízo do corpo tem o mesmo valor que o do espírito, e o corpo recua diante do aniquilamento. Cultivamos o hábito de viver antes de adquirir o de pensar". (21)
"A esquiva mortal (...) é a esperança. Esperança de uma outra vida que é preciso 'merecer', ou truque daqueles que vivem não pela vida em si, mas por alguma grande idéia que a ultrapassa, sublima, lhe dá um sentido e a trai.
Tudo contribui, assim, para embaralhar as cartas. Não foi à toa que até aqui jogamos com as palavras, fingindo acreditar que negar um sentido à vida leva obrigatoriamente a declarar que ela não vale a pena ser vivida. Na verdade, não há nenhuma medida obrigatória entre esses dois juízos". (22)
"Será que seu absurdo [da existência] exige que escapemos dela, pela esperança ou pelo suicídio?" (22)
CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2008