segunda-feira, 25 de maio de 2009

O Mito de Sísifo, Albert Camus - Parte I a

O Mito de Sísifo parte I: Um Raciocínio Aburdo


O Absurdo e o Suicídio


"Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia." (17)

"Vejo outros que, paradoxalmente, deixam-se matar pelas idéias ou ilusões que lhes dão uma razão de viver (o que se denomina razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer)." (18)

"Um gesto desses [o suicídio] se prepara no silêncio do coração, da mesma maneira que uma grande obra. O próprio homem o ignora." (18)

"Mas se é difícil fixar o instante preciso, o percurso sutil em que o espírito apostou na morte, é mais simples extrair do gesto em si as consqüências que ele supõe. Matar-se, em certo sentido, e como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos. (...)

Trata-se apenas de confessar que isso "não vale a pena"." (19)

"Continuamos fazendo os gestos que a existência impõe por muitos motivos, o primeiro dos quais é o costume. Morrer por vontade própria supõe que se reconheceu, mesmo instintivamente, o caráter ridículo desse costume, a ausência de qualquer motivo profundo para viver, o caráter insensato da agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento." (19)

"A priori, e invertendo os termos do problema, parece que ou você se mata ou não se mata, só há duas soluções filosóficas, a do sim e a do não. Seria fácil demais. Mas temos que pensar naqueles que não param de interrogar, sem chegar a nenhuma conclusão. E não estou ironizando: trata-se da maioria." (20/21)

"... será então preciso acreditar que não há relação alguma entre a opinião que se tem sobre a vida e o gesto que se faz para abandoná-la?" (21)

"O juízo do corpo tem o mesmo valor que o do espírito, e o corpo recua diante do aniquilamento. Cultivamos o hábito de viver antes de adquirir o de pensar". (21)

"A esquiva mortal (...) é a esperança. Esperança de uma outra vida que é preciso 'merecer', ou truque daqueles que vivem não pela vida em si, mas por alguma grande idéia que a ultrapassa, sublima, lhe dá um sentido e a trai.
Tudo contribui, assim, para embaralhar as cartas. Não foi à toa que até aqui jogamos com as palavras, fingindo acreditar que negar um sentido à vida leva obrigatoriamente a declarar que ela não vale a pena ser vivida. Na verdade, não há nenhuma medida obrigatória entre esses dois juízos". (22)

"Será que seu absurdo [da existência] exige que escapemos dela, pela esperança ou pelo suicídio?" (22)



CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2008

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A náusea, Sartre

"As coisas não vão bem! Absolutamente não vão bem: estou com ela, com a sujeira, com a Náusea. E dessa vez é diferente: ela me veio num café." (36)

"Nada mudou, e no entanto tudo existe de outra maneira. Não consigo descrever; é como a Náusea, e no entanto é exatamente o contrário: finalmente me acontece uma aventura e, quando me interrogo, vejo que me acontece que sou eu e que estou aqui; sou eu que fendo a noite, estou feliz como um herói de romance." (87)

"Vejo-me avançar com o sentimento da fatalidade". (87)

"Tudo retornou ao silêncio: mas já não é o mesmo silêncio. Começou a chover: a água bate de leve nas vidraças; se ainda houver crianças fantasiadas nas ruas, a chuva vai amolecer e borrar suas máscaras de papelão." (103)

"É preciso não sentir medo." (111)

"Faz uma hora que estou aqui, os braços caídos, em minha cadeira. Começa a escurecer. Afora isso, nada mudou neste quarto: o papel branco continua na mesa, ao lado da caneta e do tinteiro... (...)
Sinto vontade de dar um salto e sair, de fazer qualquer coisa para me distrair. Mas, se levanto um dedo, se não me mantenho absolutamente imóvel, sei bem o que vai me acontecer. Não quero que isso me aconteça ainda. Isso virá sempre cedo demais. Não me mexo;" (150-151)

"Sobretudo não me mexer, não me mexer... Ah!
Não pude impedir esse movimento de ombros...
A coisa, que estava à espera, alertou-se, precipitou-se sobre mim, penetra em mim, estou pleno dela. - Não é nada: a Coisa sou eu." (152)

"Sinto minha mão. (...); sinto seu peso na mesa que não sou eu. Essa impressão de peso persiste, não passa, persiste. Não há razão para que passe. Com o tempo, isso se torna intolerável... Retiro minha mão, coloco-a em meu bolso. Mas sinto logo, através do tecido, o calor de minha coxa. Faço saltar imediatamente minha mão de meu bolso; deixo-a caída junto ao espaldar da cadeira. Agora sinto seu peso na ponta de meu braço. Ela se estende um pouco, muito pouco, mole, maciamente ela existe. Não insisto: onde quer que a ponha, ela continuará a existir, e eu continuarei a sentir que ela existe; não posso suprimi-la, nem suprimir o resto de meu corpo" (153)

"Meu canivete está sobre a mesa. Abro-o. Por que não?" (154)

"O gesto foi muito nervoso; a lâmina escorregou, a ferida é superficial. Sangra. E afinal? O que foi que mudou? De toda maneira, olho com satisfação, sobre a folha branca, por entre as linhas que tracei há pouco, essa poçazinha de sangue que finalmente deixou de ser eu." (154)

"Farei um curativo em minha mão? Hesito. Olho para o monótono veiozinho de sangue. Começa a coagular. Terminou. Minha pele, em torno do corte, parece enferrujada. Sob a pele resta apenas uma pequena sensação semelhante às outras, talvez ainda mais apagada." (155)

"Sinto frio, dou um passo, sinto frio, um passo, viro à esquerda, louco, estou louco? Ele diz que tem medo de estar louco, a existência, ele pára, o corpo pára, ele pensa que pára, de onde vem? Que faz? Recomeça a andar, sente medo, muito medo, o ignóbil indivíduo, o desejo como uma bruma, o desejo, o nojo, ele diz que está enojado de existir. Está enojado? Cansado e enojado de existir." (157)

"Corre para fugir de si mesmo, para se jogar no lago? Corre, o coração, o coração que bate é uma festa". (157)

"É meio-dia, estou à espera da hora de dormir." (159)

"É estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta." (187)

"Não posso dizer que me sinta aliviado nem contente; ao contrário, sinto-me esmagado. (...) A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a Náusea sou eu." (192)

"E eu - fraco, lânguido, obsceno, digerindo, revolvendo pensamentos sombrios -, também eu era demais. (...) Pensava vagamente em me suprimir, aniquilar pelo menos uma dessas existências supérfluas". (195)

"Não havia nada mais, meus olhos estavam vazios, e minha libertação me encantava." (200)

"Sou livre: já não me resta nenhuma razão para viver, todas as que tentei cederam e já não posso imaginar outras. Ainda sou bastante jovem, ainda tenho força bastante para recomeçar. Mas recomeçar o quê? (...)
Sozinho e livre. Mas essa liberdade se assemelha um pouco à morte." (236)

"A Náusea me concede uma trégua curta. Mas sei que voltará: é meu estado normal". (236)

"Entedio-me, isso é tudo" (237)

"Sei muito bem que não quero fazer nada: fazer alguma coisa é criar existência - e já há existência suficiente sem isso.
A verdade é que não posso soltar minha caneta: acho que vou ter a Náusea, e tenho a impressão de retardá-la enquanto escrevo. Então escrevo o que me passa pela cabeça". (260)


SARTRE, Jean-Paul. A Náusea. São Paulo: Círculo do livro, ___

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Le Solitaire, Eugène Ionesco

"Et pourtant je me sentais mal à l'aise dans ma peau."

"Il est probable que l'univers n'est ni fini ni infini, les mots fini ou infini étant des expressions qui ne veulent rien dire."

"Je n'ai pas de désirs ou j'en ai peu ou je n'en ai plus. Si j'en ai, ils ne valent pas d'être exploités et survoltés. Peut-être que j'ai des désirs tout de même. Mais ils dorment. Je ne tiens pas à les réveiller. Qu'ai-je comme désirs? Que l'on me fiche la paix. Que les désirs des autres me laissent tranquille et qu'ils ne veuillent pas m'engager à leur suite. Je désire surtout ne pas avoir de désirs. Je m'aperçois que j'en ai pourtant. Bon, le désir des femmes s'est éteint. Pour toujours j'espère. D'ailleurs je ne désirais que faiblement. C'est ce que m'a sauvé des femmes, mais j'ai tout de même envie de boire du vin. Cela réveille un petit peu ou cela entretient un très léger désir de vivre. Autrement, tout se serait déjà éteint, je serais déjà mort."

"Entouré par le monde mais pas au monde."

"Nous subissons. Je subis. Que je me contente de subir. Voilà déjà la résignation. Et chaque fois qu'il y a un peu de résignation en moi, je me sens soulagé. Une sorte de calme, un repos. Je vais m'endormir. Sois calme."

"Chaque aube est un commencement ou un recommencement. C'est une résurrection. La mort s'éloigne, elle va se cacher hors du jour."

"J'ai le vertige et j'ai peur de l'ennui; (...) Si on écrit sur l'ennui, c'est que l'on ne s'ennuie pas. L'ennui paralyse ou ne vous fait faire que des actions destructrices ou vous met dans un état voisin de la mort. C'était insupportable. Personne ne pouvai m'aider. Je ne pouvais m'accrocher à rien."

"Ce n'était pas l'angoisse, c'était l'ennui, un ennui matériel, un ennui physique, ni bouger, ni rester ni assis ni débout. Tout était souffrance, gangrène de l'âme. (...) L'ennui est pire que l'angoisse, c'est même le contraire, quand on est angoissé, on ne s'ennuie plus; je passais comme ça de l'ennui à l'angoisse, de l'angoisse à l'ennui."

"Un mort qui ne serait pas mort, un vivant qui ne serait plus vivant."

"Ce mal de tête et cette nausée! Il y avait un seul remède: le verre de cognac, plutôt deux verres de cognac".

"La nausée du vide. Et puis la nausée du trop-plein. Comment cela pouvait-il tenir encore et opur combien de temps, si le temps était. Il n'y avait peut-être que de l'instantané."

"J'avais surtout le sentiment d'un manque".



IONESCO, Eugène. Le solitaire. Paris: Mercure de France, 1973.

Os passos perdidos

"E assim como o pecador despeja diante do confessionário o saco negro de suas iniqüidades e concupiscências - levado por um tipo de euforia de falar mal de si mesmo que chega à ânsia de execração -, pinto a meu mestre, com as cores mais sujas, com os betumes mais feios, a inutilidade de minha vida, seu atordoamento durante o dia, sua inconsciência durante a noite."

CARPENTIER, Alejo. Os passos perdidos. São Paulo: Brasiliense, 1985

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