quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Ave, palavra - Guimarães Rosa

O mau humor de Wotan

"Longo o rumo dos horizontes,
(...) e um coração de amante a contrair-se, grande como a paisagem sármata e a desolação sagrada da ausência." (34)

Aquário

"Os peixes à baila, bocejam e se abanam, sem direito à imobilidade." (62)

"Podia ser um caranguejo ou um coração." (62)

"O caranguejo a encalacrar-se, tão intelectualmente construído.
O caranguejo carrascasco: comexe-se nele uma ideia, curva, doida e não cega." (64)

"Ainda há outra tartaruga - inventando a hélice." (65)

Evanira!

"Dois seres, trazidos todo o modo a um bosque, descobrem que, imemorialmente, se amam." (17)

"Vejo-te, meu íntimo é solúvel em ti. (...). AMO-TE (- "Meu amor...") DE REPENTE, E ME SEPARO DE UM MILHÃO DE COISAS. Uno-me. EU, enfim, era eu, indispersado. A AMADA. O mundo o mundo o mundo." (69)

"Sim - nostalgir-me, voltar para o coração. Sob refúgio. A SAUDADE PLORANTE, SUBTRAINDO SEGREDOS. Um anjo pode forçar demais as pessoas à transparência. Lembro-me de minha sombra. PREDESTINO!" (76)

Zoo

"Um coelho pulou no ar - como a gente espirra." (97)

"Um orangotango de rugas na testa; que, sem desrespeito, tem vezes lembra Schopenhauer." (99)

Circo do miudinho

"Ih, grilos. Os grilos, lícitos. Os grilos charivários. O grilo hortelão. O grilo agrícola. Os grilos - sempre por um triz! Os grilos tinem isqueiros. Os grilos, aí. O chirpio dos grilos. O trilo intranquilo. O milgrilejo, o miligril, a griloíce, o visgrilo (bisgrilo é a cantoria das cigarras). O impertinir. O esmeril do grilo. O outro e outro grilo. (Os grilos do mato são mais langorosos, têm habitat úmido. Esses, tocam viola.) O grilo, trogloditazinho trovador, rabeca às costas, sai de seu hipogeu, para vir comer as folhas da framboeseira. Aí, o grilo:

Isto é, ele se sai, muito vestido, de pé, de botas, é o grilo-de-botas, de mosqueteiro, fininhas plumas no chapéu, fininhos bigodes, e de espada à cinta, flanflim, só que inda traz, saindo-lhe dos cantos da boca, um pedacinho verde de folha - para de inofensivo se fingir, ou por descuido, ou vício, ou garbo de grilo. Fazia lua cheia, um luar desses, de todo o ar, o luar estava com tudo. A lua: Ó. O grilo olha para ela. Diz, mão à ilharga, cofiando antenas, o grilinho:
- A lua, hem... Saudade de quem?" (334)


Rosa, João Guimarães. Ave, palavra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

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