" E estou de novo não diria só, não, não é do meu feitio, mas, como dizer, não sei, de volta a mim mesmo, não, nunca me deixei, livre, aí está, não sei o que isto quer dizer, mas é a palavra que ouço empregarem, livre para fazer o quê, para não fazer nada, para saber, mas o quê, as leis da consciência talvez, da minha consciência, que por exemplo a água sobe à medida que alguém afunda e que seria melhor, enfim, tão bom, apagar os textos em vez de escurecer as margens, tapá-los até que fique tudo branco e liso, e que a idiotice assuma sua verdadeira face, uma desgraça sem sentido e sem saída." (31)
"Isso tem a aparência de um descanso, mas não é nada disso, deslizo contente na luz dos outros, aquela que antigamente devia ser a minha, não digo o contrário, depois é a angústia do retorno, não direi para onde ,não posso, para a ausência talvez, é preciso voltar para lá, é tudo que sei, não faz bem ficar nela, não faz bem deixá-la." (68)
"De tanto chamar isso de minha vida vou acabar acreditando." (81)
"Para falar a verdade, do ponto de vista da cenestesia, entenda-se, me sentia mais ou menos como sempre, ou seja - atenção, vou dar o serviço -, de um nervosismo tão fremente que perdia de certo modo a sensibilidade, para não dizer a consciência, e flutuava no fundo de um torpor misericordioso atravessado por breves e abomináveis clarões, é como tenho a honra de lhes contar." (82)
BECKETT, Samuel. Molloy. São Paulo: Globo, 2007.
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