quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Malone Morre, Samuel Beckett

"Vivi numa espécie de estado de coma" (11)


"Não vale a pena culpar as palavras. Elas não são mais vazias do que aquilo que carregam" (26)


"Então, ficar sozinho por um longo tempo, infeliz, não sabendo como deveria ser minha oração, nem para quem." (64)


"A vida, quem sabe, as tentativas de amar, de comer, de escapar dos que querem vingança." (64)


"E talvez ele chegou naquele estágio do seu instante quando viver é vagar sozinho no fundo de um instante sem limites, onde a luz não varia e onde os destroços se parecem." (73)


"Logo quer dizer daqui a dois ou três dias, na linguagem dos dias quando me ensinavam o nome dos dias da semana e eu me espantava que fossem tão poucos e agitava minhas mãozinhas gritando, mais!, mais!, e como ler as horas no relógio, e que são dois ou três dias, mais ou menos, a longo prazo, uma bobagem qualquer" (74)


"E se um dia eu me calar, é porque não há mais nada a dizer, embora nada tenha sido dito. Mas vamos deixar de lado esses assuntos mórbidos e vamos voltar ao tema da minha morte, daqui a uns dois ou três dias, se não me falha a memória." (77)


"E no meio de seu suplício, ninguém fica tanto tempo numa situação dessas sem se sentir incomodado, ele começou a desejar que a chuva nunca mais passasse, nem seus sofrimentos nem suas penas, pois a causa de seus males era, certamente, a chuva, a posição deitada não tendo nada de particularmente desagradável, como se existisse uma relação entre o que sofre e o que faz sofrer." (85)


"Cansado com o meu cansaço, branca lua última, único lamento, nem isso. Estar morto, diante dela, sobre ela, com ela, e girar, morto sobre morta, em volta dos pobres homens, e nunca mais ter que morrer, entre vivos e moribundos." (113)


"Minha história terminada, ainda vou estar vivendo. Falta que promete. É o fim de mim. Não vou mais dizer eu." (137)



BECKETT, Samuel. Malone morre. Editora Brasiliense: São Paulo, 1986.

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